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domingo, 15 de outubro de 2017

Gengis Trump

Li em algum lugar uma citação bizarra de Tolstoi, segundo a qual deve-se tomar cuidado com um Gengis Khan que tenha um telefone ... Não dá para contestar o chiste, afinal de contas Khan dizia de si mesmo ser “um castigo de Deus. E se você não cometeu grandes pecados, Deus não teria enviado um castigo como eu”. Este guerreiro mongol, um nómada semianalfabeto e pelo jeito nada sentimental, liderou o mais extenso império da história, mercê de muita violência de sua horda, que dominou e pilhou do Irão à Indochina. O século XIII testemunhou invasões mongóis na Lituânia, Polónia e Hungria, denunciando a aproximação do coração da Europa.

Dias atrás estacionei o carro numa rua bem próxima do Auditório Araújo Viana, em Porto Alegre. Foi naquela arena, então ao ar livre, que assisti pela primeira vez uma ópera, levado por um tio que apreciava esta combinação de música e teatro. Tinha dez anos e depois do espetáculo caminhamos por trechos escuros do Parque da Redenção. Confesso que me senti pouco confortável, mas meu tio não demonstrou medo algum. Era outro tempo. Passadas cinco décadas daquela noite, voltei ao veículo para buscar algo que esquecera e vi um contentor de lixo cuspindo objetos. A tampa se abria e voava uma lata, ou uma garrafa plástica, como num desenho animado em que a lata de lixo estivesse com indisposição estomacal.

Por breves segundos não entendi o que se passava, até que um sem-abrigo começasse a sair do contentor. Longe de apelar para a pieguice, confesso que foi uma das cenas mais cruas que presenciei, um verdadeiro dossier contra uma sociedade que perdeu qualquer referência de justiça social e caridade. Como um rapaz dos seus vinte e poucos anos pôde chegar naquele ápice de degradação humana? José Bonifácio já se manifestara a este respeito quando retornou ao Brasil depois de décadas na Europa: “No Brasil há um luxo grosseiro a par de infinitas privações de coisas necessárias”. Bonifácio convocava seus contemporâneos para ideias transformadoras numa sociedade escravocrata: “Os negros são homens como nós”, dizia.

Fico a imaginar a repercussão de tais manifestações naquele tempo. É mais ou menos o que acontece quando se diz a um político, hoje, que a ladroagem tem que acabar, que a contratação de apaniguados é indecente. É o que um cidadão arranja para si se disser a um magistrado que o judiciário está assentado sobre lamentáveis privilégios e que o povo anda a ver a justiça por uma luneta ... Arruma-se desafetos com enorme facilidade simplesmente porque se diz o óbvio.

Enquanto escrevo chega a informação de que uma de minhas filhas teve, no início da noite, cartões bancários roubados numa farmácia em São Paulo, bem perto de onde mora, levados por três sujeitos com armas de fogo. Liguei para saber se estava tudo bem, para recomendar que se cuide. E que reze. Estamos em plena barbárie, retrocedemos no tempo e o trem do salve-se quem puder já corre sobre os trilhos da impunidade. O que mais aborrece são os discursos que pregam medidas de repressão, cada vez mais dispendiosas para uma população cada vez mais pobre. Discursos que não privilegiam a transformação do país. Não dão relevo à família, não difundem valores, não pacificam, não pregam uma nação coesa. Há quem diga que nossa sociedade nasceu torta e que, no geral, o brasileiro admira malandros. Com a palavra todos nós.

Mas a violência não corre apenas em nossas ruas e becos. Está nos quatro cantos do mundo. Corre solta em sociedades fechadas e se faz presente até mesmo em países que se julgam paladinos da humanidade. A ascensão de um sujeito rude e, tudo indica, cruel, à presidência dos Estados Unidos, é uma ameaça à humanidade. Talvez obcecado em atacar o Irã enquanto endurece o discurso e faz cara feia para Kim Jong-um, Trump pode convulsionar o mundo. Trata-se de um macaco em loja de cristais. E tem à mão bem mais que um telefone ...

No livro “O piloto de Hitler”, de C.G.Sweeting, consta a descrição de Hans Baur, o piloto, de um voo no espaço aéreo polaco. Segundo ele Hitler olhava pela janela calmamente, a despeito da ruína no solo, com fumaça em cidades e aldeias destruídas. Mostrava pouca emoção.  É assim que vejo os psicopatas que comandam o mundo, sobrevoando a realidade, ignorando lágrimas e surdos ao clamor dos que sofrem. Homens de gelo, capazes de roubar de miseráveis que prometeram proteger, de promover rios de sangue ou de explorar nações inteiras, pondo-as de joelhos sob agiotagem devidamente legalizada. Hitler não estará sozinho no Juízo Final.

J. B. Teixeira





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