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quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Zeus nos acuda

Esta deve ter sido a versão grega, antes de Cristo, para o grito humano de desespero. Zeus, o deus dos deuses do Olimpo, não tinha nada de tão superior. Trapaceava, era infiel e sua superioridade residia mais na imortalidade que no caráter. Eis que seu chão natal se vê a braços com endividamento impagável e anda no fio da navalha da banca internacional. Sairá a Grécia da comunidade europeia, ou não? Só Zeus sabe.

Se permanecer, não o será porque a cultura grega não pode ser alijada do convívio europeu, como desandaram a dizer alguns figurões do velho continente. Ficará, se ficar, para que seu exemplo não seja seguido por Irlanda, Portugal, Espanha ou outro membro em dificuldade. E também para que os agiotas do  mundo recebam o máximo possível do que lhes é devido. Muitos deles são mais conhecidos pela alcunha de banqueiros e, diga-se de passagem, se lixam para Aristóteles e Platão. Esta gente não filosofa, doutrina. Não admira a arte, senão como investimento. Não vê irmãos, senão clientes e servos, o que dá quase na mesma, e seu lema é cada um por si e Zeus por todos.

Enquanto isto, cá no nosso quintal, finalmente entendemos com corações e mentes o que sente um cachorro que caiu da mudança. Olhamos para a frente, atônitos, enquanto o carro da história some no horizonte. Se faz noite sem lua e sob um céu nada amistoso refletimos sobre nossa grande obra civilizatória, que passou pela visitação interesseira dos lusos, pelo preamento dos nativos, pelas capitanias hereditárias, pela escravidão negra, pelo império, pelas lutas libertárias e pela república, que já nasceu velha, consagrando oligarquias. Agora esta árvore da história vem sendo golpeada pelo machado afiado dos incompetentes. Uns aprendizes de alquimistas cujo talento é tão notável que até aqui só conseguiram transformar vinho em vinagre.

As pessoas se entreolham e manifestam que não entendem o que está acontecendo. Dois amigos paulistas me ligam e perguntam se os prejudicados não deveriam depor o governo! Eles têm a ilusão de que os empresários podem sublevar-se para varrer os canalhas do horizonte que começa no Oiapoque e termina no Chuí! O que dizer a eles, quando até a pátria de chuteiras vive o pior de seus momentos?

Quem caiu da mudança? Não foi o cachorro vira-lata, de cujo complexo padecemos, como diagnosticou o visionário Nelson Rodrigues. Quem caiu foram os cachorros domésticos, que só se diferenciavam dos vira-latas pela ração que comiam. Também se vive de sonho, mas dormir nas nuvens só é possível em desenho animado. Nossa realidade é de deixar os poodles assustados e os buldogues de queixo ainda mais caído. Meus caros, nos dirão, a ração está no fim! Mas voltar a roer ossos será a nossa salvação, porque nos lembrará que temos dentes.

O que nos dizem as notícias? Que estamos endividados, que o governo gastou mal e demais e que o processo eleitoral foi mais mentiroso que conversa de pescador. Antecipam também que precisaremos verter lágrimas amargas para preencher a taça do superávit primário, tomada de um só gole pelos credores, cuja sede é a mesma dos desidratados. Sede de uma gente que nem com a longevidade de Matusalém poderia consumir tudo que acumulou. A seu modo, também são alquimistas. Transformam papel, títulos podres e promissórias - assinadas por mãos endividadas,- em ouro, propriedades e diamantes. Não estamos tão longe da Grécia e a mão que lhe aperta o garrote é a mesma que nos passa a corda pelo pescoço. Os pais da tragédia vivem momento de luto e o velório será longo. Que Zeus os ajude.

O drama do Brasil não decorre de problemas momentâneos, como alguns descarados ainda nos querem fazer acreditar. Ele se manifesta numa cruel estatística: a participação atual da nossa indústria no produto interno bruto mal passa de dez por cento. Décadas de frivolidade, falta de planejamento e crimes de lesa pátria provocaram a desnacionalização da economia.

Sentados em recursos naturais invejáveis, nos limitamos cada vez mais a abrir buracos para exportar commodities. Que mal pagam os espelhinhos e apitos que reviram nossos olhos. É duro admitir, mas caminhamos para trás. Com direito a uma situação dramática, porque os que nos governam não têm estatura para o desafio, nem autoridade moral. Que Deus nos acuda.

J. B. Teixeira



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