quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Entreguismo

É claro que ficamos felizes com as vitórias, mas hoje sinto que no futebol o alívio por não ter perdido é ainda maior que a alegria de vencer. Por mais que se invoque o espírito desportivo, torcer por um time ou contra outro tem uma boa pitada de sadomasoquismo. Começo pelas recordações de futebol apenas como um pretexto inicial.

Quando comecei a torcer pelo Grêmio, os jogadores tinham enorme identificação com os clubes. Áureo, Joãozinho, Alcindo e Babá eram ídolos que ninguém imaginaria vestindo uma camiseta que não fosse a do Grêmio. A seleção brasileira conquistaria o tricampeonato no México e nos achávamos os melhores do mundo. E éramos. O tempo então encarregou-se de lentamente erodir nossa autoestima ... A derrota para o carrossel holandês foi o início. Há mais ou menos uma década, crianças e adultos passaram a envergar camisetas de Barcelona, Chelsea, Real Madri, como se fossem espanhóis ou ingleses. Em sendo o Brasil uma pátria inegavelmente identificada com chuteiras, o fenômeno era já um alerta significativo, solenemente ignorado por conta de muitos interesses, incluindo o das mídias que transmitem jogos de fora.

Horas depois da conquista do tricampeonato da Libertadores, que encheu ruas e praças como nenhuma manifestação cívica, recente ou remota, eis que o jogador gremista considerado o melhor da partida final deixa-se fotografar com a camiseta de um clube europeu que talvez pague a multa rescisória para contratá-lo. Já nos habituamos a perder os melhores que, mal iniciados em seus clubes, beijam o distintivo mas revelam o sonho de jogar na Europa. Para, mais tarde, decadentes, pangarés, voltarem a jogar no Brasil e ainda auferirem muito dinheiro.

Nascido hoje, talvez tudo me parecesse natural, eis que vivemos a plenitude do entreguismo, tempo em que nossa indignação coletiva parece extinta. Nossos protestos não precisam ser amordaçados porque nosso grito sequer brota na garganta. Nossa juventude sonha em residir no exterior, como se fôssemos uma ilha superpopulosa incapaz de prover oportunidades ou mesmo subsistência aos nativos. Rumamos para a situação que vi nos arredores de Buenos Aires há cerca de dez anos. Tomara um trem e a paisagem que desfilava pelas janelas mostrava regiões empobrecidas, prédios industriais abandonados e nitidamente mais velhos que jovens pelas ruas, denunciando o êxodo laboral, sabidamente tangido pelos números medíocres da economia argentina, que no início do século XX a colocava entre as dez maiores do mundo.

É claro que seria inútil sair pelas ruas cantando o hino nacional. A momentânea impossibilidade de reverter este processo me faz lembrar da autobiografia de Isadora Duncan. Californiana, desenvolveu suas ideias e carreira no velho continente. Fascinada pela cultura grega, depois de sucessos na França e na Alemanha decidiu morar na Grécia. Comprou uma área inóspita, com vista para o Partenon, e nela planejou construir um templo pagão. Passou a vestir-se com os panos dos gregos antigos e a usar sandálias. Foi algo bizarro para os próprios gregos, surpresos pela iniciativa da famosa dançarina. Demorou para perceber que era tarde demais.

Em sua primeira viagem a São Petersburgo, em 1905, Isadora Duncan viveu momentos que a abateram. Ainda não amanhecera quando, entre a estação do trem e o hotel, o cocheiro parou diante de um interminável cortejo fúnebre. Eram os mortos no Domingo Sangrento, massacrados junto ao Palácio de Inverno quando, desarmados, foram pedir socorro ao czar para a miséria em que viviam. O sepultamento foi programado naquela hora para evitar manifestações e conflitos. A industrialização tardia da Rússia e a situação precária do povo ocasionaram uma revolução no mesmo ano, uma espécie de avant-première de 1917. Ocupada até então com muitas frivolidades, a talentosa Isadora Duncan mal conseguiu conciliar o sono naqueles dias e fez para si mesma o voto de consagrar todas as suas forças “ao serviço do povo e dos oprimidos”.

Dias atrás fiquei sabendo que o governo estaria negociando com multinacionais a concessão da exploração do maior reservatório subterrâneo de água doce do planeta, o Aqüifero Guarani. Tudo se passa na calada da noite, sem que a imprensa bata tambores. Quem me relatou o fato não escondeu seu desanimado nacionalismo e revelou sentir-se massacrado pelos crimes de lesa-pátria que nos habituamos a engolir, sem mais denunciar os golpes. Estamos numa noite escura, assistindo o cortejo de nosso futuro. No silêncio de quem nos trai. Sem verter lágrimas, que brotariam, abundantes, se víssemos a cena com música à altura do drama que vivemos.

J. B. Teixeira

De olhos bem fechados

Perto da escola de nossa caçula um pequeno cão amarga seus dias na escuridão. Está cego. Mantido num espaço reduzido, que o protege da estreiteza de sentidos, preserva no faro e na audição sua identidade canina. Aproxima-se da tela quando chamado por um nome que nossa filha inventou. Deve achar que Pepê é o seu sobrenome, eis que nunca fora chamado desta forma. Se a morte não o espreita, tampouco a vida o acalenta. Será que revê algumas cenas que por certo protagonizou, como cão trigueiro que encantava crianças, ou como companheiro que encorajava os velhos? Seja como for, a vaga do oceano trágico da vida abateu-se sobre ele, e já o arrastou para um fim melancólico. Fim e melancolia, de qualquer jeito, já são quase sinônimos.

José Mindlin foi um empresário paulista. Advogado de origem, jornalista de O Estado de São Paulo, acabaria capitaneando uma das maiores indústrias de autopeças com capital nacional. Afastou-se do ramo quando pressentiu que a globalização esmagaria iniciativas autóctones nos países que não fossem protagonistas e o Brasil, infelizmente, já estava mais para caudatário que para líder de qualquer coisa avançada. Mindlin fez a leitura precoce e se pôs em fuga, digamos assim, como os bichos nos desastres naturais, que muito antes dos homens já se põem a correr.

Desde menino Mindlin cultivou o hábito de adquirir livros, sobretudo obras literárias com valor para colecionadores. Uma vida dedicada à arte de garimpar nos sebos e livrarias do mundo acabou por produzir um dos maiores acervos de que se tem notícia de autores nacionais ou de alguma forma ligados à nossa história, parte do qual constitui hoje a Biblioteca Brasiliana, instalada no campus da Universidade de São Paulo. Depois de casado, contaria com a cumplicidade de sua esposa, ela também uma apaixonada pelos livros antigos, a ponto de se tornar uma especialista em recuperar obras machucadas pelo tempo. Ironia da vida, quase no fim da vida Mindlin não podia mais ler. Dois auxiliares, então,  liam para ele obras inteiras.

Como apaixonado por livros, sempre que posso coloco meus pés em livrarias e sobretudo em bibliotecas, de preferência aquelas que ostentam obras do rés do chão ao teto, como convite irrecusável a encontrar algumas pérolas em meio a tantas lombadas. A casa de Assis Brasil, em Pedras Altas, por exemplo, tem seu centro exatamente na biblioteca, cujos apuro e dimensão traduzem de pronto onde andava o coração daquele notável político.

Quando vamos aos cemitérios e percebemos mausoléus. ou simples campas, abandonados, decaídos pelo desleixo, logo nos vem à imaginação a desídia dos descendentes ou sua extinção. Se viva a descendência, pode-se a ela imputar como pecado venial o esquecimento dos seus, olvidados na sucessão de invernos e verões. Uns e outros, dando de ombros para um campo santo, podem argumentar que lá, nos cemitérios, enfim nada mais resta. Pode-se aceitar a tese.

Uma biblioteca abandonada, porém, traduz uma ruptura entre gerações, eis que a um filho não escapam as imagens de seu pai com um livro na mão. São indeléveis as imagens de alguém recolhido à leitura, numa atmosfera de penumbra em que sobressaem tão somente o leitor e a luz que o ilumina, como uma luz espiritual. A orfandade de uma biblioteca, verdadeira cidade de livros e tradutora dos interesses maiores de seu proprietário original, é fato que clama aos seus.

Livros desprezados, filhos do esquecimento de bibliotecas que um dia tiveram sobrenome, até caírem nas mãos desinteressadas dos herdeiros, são cada vez mais comuns, como atesta o crescimento do número de casas que vendem livros velhos. Compulsar livros amarelecidos pelo tempo é um prazer que a vida não me negou e me faz lembrar a fina ironia de um personagem de Anatole France. Diante de seus livros, Sylvestre Bonnard responde a uma menina que indagara se ele lera todos: “Infelizmente, sim, e é por isso que nada sei, pois cada um desses livros desmente o outro; depois de ler todos, ninguém sabe o que pensar”.

Não se chega a tanto quando temos convicções e escolhemos o que ler com algum critério. Em tempo de muita informação e pouca sabedoria, a ironia de Bonnard não traduz a verdade. Muitos não sabem o que pensar não por terem lido demais, senão por não lerem coisa alguma além de textos de autoajuda e bobagens que não passam de gravetos dissipados na fogueira do inútil.

J. B. Teixeira





Notícias falsas

Fake news ou notícias falsas publicadas como autênticas, consiste numa construção de conteúdo intencionalmente enganoso, falso e atraente, escritas e publicadas com a intenção de enganar, muitas vezes com manchetes sensacionalistas, exageradas ou mesmo falsas para chamar a atenção e aumentar o número de leitores com o fim de obter ganhos financeiros, políticos ou outros.

O Papa Francisco preocupado com os perigos de ódio e conflitos provocados pelas notícias falsas, escolheu como tema “fake news” e jornalismo de paz", para a sua mensagem do Dia Mundial das Comunicações Sociais, que será celebrado a 13 de Maio de 2018, alertando para os riscos da difusão desta desinformação. 

No contexto duma comunicação cada vez mais rápida e dentro dum sistema digital, está potenciado o fenómeno das notícias falsas, implicando a importância de um "esforço comum" no sentido de "prevenir a sua difusão" e "redescobrir o valor da profissão jornalística e a responsabilidade pessoal de cada um na comunicação da verdade.

Aos jornalistas, o Papa apela para que apostem num jornalismo "que não se limite a queimar notícias, mas se comprometa na busca das causas reais dos conflitos, para favorecer a sua compreensão das raízes e a sua superação através de processos virtuosos; um jornalismo empenhado a indicar soluções alternativas às escaladas do clamor e da violência verbal".

Os autores das fake news, acescenta ainda Francisco, usam a "lógica da serpente", que é "capaz de se camuflar e morder em qualquer lugar". Estas notícias falsas "tornam-se frequentemente virais, ou seja, propagam-se com grande rapidez e de forma dificilmente controlável, não tanto pela lógica de partilha que caracteriza os meios de comunicação social, como sobretudo pelo fascínio que detêm sobre a avidez insaciável que facilmente se acende no ser humano". E isso torna cada vez mais relevante a necessidade de "educar para a verdade". 

Os profissionais devem ser como "os guardiães das notícias": " Informar é formar, é lidar com a vida das pessoas". No mundo actual, o jornalista "não desempenha apenas uma profissão, mas uma verdadeira e própria missão". Por isso, "no meio do frenesim das notícias e na voragem dos scoop, tem o dever de lembrar que, no centro da notícia, não está a velocidade em comunicá-la, nem o impacto sobre as audiências, mas as pessoas". 

«Vós tendes uma tarefa, ou melhor uma missão, entre as mais importantes no mundo de hoje: informar corretamente, oferecer a todos uma versão dos acontecimentos o mais possível aderente à realidade. Sois chamados a tornar acessíveis a um vasto público problemáticas complexas, de maneira a realizar uma mediação entre os conhecimentos à disposição dos especialistas e a concreta possibilidade de uma sua ampla divulgação».

«A vossa voz, livre e responsável, é fundamental para o crescimento de qualquer sociedade que queira definir-se democrática, a fim de que seja assegurado o intercâmbio constante de ideias e um debate profícuo, fundamentado em dados reais e corretamente divulgados».

É necessário informar, mas informar bem. «Na nossa época, muitas vezes dominada pelo anseio da velocidade, pelo impulso ao sensacionalismo em detrimento da exatidão e da exaustividade, da emotividade exacerbada deliberadamente, em vez da reflexão ponderada, sente-se de modo urgente a necessidade de uma informação confiável, com dados e notícias averiguados, que não vise surpreender e emocionar mas, ao contrário, que se proponha fazer aumentar nos leitores um sentido crítico saudável, que lhes permita levantar interrogações adequadas e chegar a conclusões motivadas»

«Deste modo, evitar-se-á estar constantemente à mercê de fáceis slogans ou de campanhas de informação extemporâneas, que deixam transparecer a intenção de manipular a realidade, as opiniões e as próprias pessoas, originando com frequência inúteis “polémicas mediáticas”». 

«Sente-se a urgente necessidade de notícias comunicadas com serenidade, exatidão e exaustividade, com uma linguagem moderada, de modo a favorecer uma reflexão profícua; palavras ponderadas e claras, que rejeitem o excesso do discurso alusivo, gritado e ambíguo». «É importante que, com paciência e método, se ofereçam critérios de juízo e informações, de tal maneira que a opinião pública seja capaz de entender e discernir, e ao contrário não seja atordoada e desnorteada».

Urge pois uma imperiosa necessidade de que a informação seja respeitada de maneira escrupulosa, juntamente com o direito à dignidade de cada pessoa humana, de modo que ninguém corra o risco de ser denegrido ou vilipendiado.

Liberdade de informação implica seriedade de notícias, fontes credíveis, honestidade nos conteúdos e recta intenção jornalística para transmitir os factos. Intercalar juízos de valor, opinar ou divagar não é próprio de jornalismo puro, que deve primar pelo escrúpulo ético de saber e querer distinguir juízo de facto, de juízo de valor.

Maria Susana Mexia




Quando se Gosta de Alguém Gosta-se Mesmo

A minha querida madrinha disse-me, um dia, algo que não esqueço. “Quando se gosta de alguém, gosta-se mesmo”. Na realidade, é uma pessoa sempre disponível para nos ouvir e aconselhar. Eis, pois, face à distância que nos separa, porque ousei desabafar um pouco, através de uma “carta”, porque sei que me ouve sempre. Na realidade, tenho a sensação que estive presente neste mundo, quase de passagem, apesar do muito tempo que já vivi. Parece-me que muitas pessoas não me terão compreendido ao longo da vida. Culpar quem? Talvez tenha escondido demasiado o meu modo de sentir, de pensar, de agir, de transmitir todo o amor à família e ao próximo que ficou guardado, frequentemente, no meu coração. Por outro lado as coisas menos boas não são, de todo, para partilhar, dado que já existem na vida, preocupações suficientes. Torna-se necessário recriar a esperança. Até quando?

Sim, até quando se consegue guardar tudo no nosso coração. A frase dos Atos dos Apóstolos refere: “A felicidade está mais em dar do que em receber”. Este dom, encontra-se genuína e profundamente no coração humano: cada pessoa percebe o desejo de entrar em contacto com os outros e realiza-se a si própria quando se dá livremente aos outros… No entanto, o espírito do mundo altera tantas vezes a inclinação interior para o dom desinteressado de si mesmo, induzindo as pessoas a satisfazer os próprios interesses particulares. A exagerada ambição de possuir impede também a criatura humana de abrir-se ao Criador e aos seus semelhantes…, como diz S. Paulo a Timóteo: “A raiz de todos os males é o amor ao dinheiro, por causa do qual alguns se desviaram da fé e se enredaram em muitas aflições”. A exploração do homem, a indiferença pelo sofrimento alheio…, são alguns dos resultados da ambição do ganho. Frente ao triste espetáculo da persistente pobreza que atinge boa parte da população mundial, como não reconhecer que o lucro perseguido a todo o custo e a falta de atenção efetiva e responsável pelo bem comum concentram uma grande quantidade de recursos nas mãos de poucos, enquanto o resto da humanidade sofre na miséria e no abandono? (S. João Paulo II).

É preciso um grande amor, um enorme espírito de sacrifício, para interiorizar e guardar o que de algum modo pode magoar os outros. Depois, a vida encarregar-se-á, um dia, de fazer ver a verdade, o quanto sofremos, caminhando sobre o tapete da incerteza, procurando manter tão-somente alguma dignidade a as boas recordações. 

Madrinha, ouso escrever-lhe estas palavras, porque sei que me compreende. Felizmente que a narrativa é silenciosa e é apenas divulgada se nós assim o quisermos. Posto isto, este momento constitui mais um desabafo: não há dor maior do que amar alguém que, em dado momento da nossa vida pode partir, rumo ao infinito, devido a um problema grave de saúde. Mas na realidade todos partiremos um dia. Caminhamos para a morte desde o dia do nosso nascimento. Sendo assim porque nos é tão difícil aceitar o que sabemos que é inevitável a curto, médio ou longo prazo, quando a nossa hora chegar?

Peço-te meu Deus, através da oração que me poupes a mais um desgosto. Não há dor maior que uma mãe, irmã, esposa possa sentir, do que ver os seus familiares sofrerem, sem nada poder fazer: unicamente continuar a dar todo o seu amor incondicional, ainda que às vezes incompreendido. 

Madrinha, ambiciono que Jesus seja o meu porto seguro, o meu amparo na dor, a minha alegria neste caminhar inseguro, em que busco o conforto de um abraço amigo, o afeto, alguma vez perdido, que preencha o meu coração com o Seu amor sobrenatural, para que o amor terreno possa ser dedicado ao próximo, a fazer o bem. Que seja como uma pedra atirada ao lago, que provoca um círculo, logo outro e ainda outro e assim, continuamente, até conseguir produzir os seus frutos. E que todos sejamos também sempre apoiados por Maria, nossa Mãe do Céu.

Madrinha, acabamos de entrar na Quaresma. O Papa Francisco na sua mensagem para este ano escreveu; “Na Divina Comédia, ao descrever o Inferno, Dante Alighieri, imagina o diabo sentado num trono de gelo; habita no gelo do amor sufocado… Como se respira o amor em nós?... O que apaga o amor é, antes de mais nada, a ganância do dinheiro, depois dela, vem a recusa de Deus e, consequentemente, de encontrar consolação n´Ele… Tudo isto se traduz em violência, que se abate sobre quantos são considerados uma ameaça… : o bebé nascituro, o idoso doente, o hóspede de passagem, o estrangeiro… A própria criação é testemunha silenciosa desse resfriamento do amor… Convido, sobretudo os membros da Igreja, a empreender com ardor o caminho da Quaresma… Se por vezes parece apagar-se em muitos corações o amor, este não se apaga no coração de Deus. Ele dá-nos sempre novas ocasiões para podermos recomeçar a amar”.

Este excerto da mensagem do Papa, Madrinha, ajuda-nos a recriar a esperança. Não fique preocupada. Como sempre, foi unicamente um desabafo com alguém que sei que me ama e me compreende. “Quando se gosta de alguém, gosta-se mesmo”. Estou ansiosa por a rever.

Santa Maria, Esperança Nossa, rogai por todos nós, permitindo que o nosso coração se volte a inflamar de esperança, de fé, de amor, de bondade, de perdão e de misericórdia. 

Maria Helena Paes









Assumo-me

Por uma questão de coerência de mim para comigo mesmo e com a verdade, sinto chegado o momento de “me assumir”…

Assim é, acuso-me de ser casado há algumas décadas, com uma mulher, por sinal a mesma. É um facto que quando me casei tinha uma relação afectiva com dois seres humanos, um do sexo feminino e outro masculino, a saber a minha querida Mãe e o meu querido Pai, que Deus tenha em Seu eterno descanso. 

Como consequência deste meu casamento, passei a relacionar-me com mais outros dois seres de ambos os sexos, o que vulgarmente a sociedade apelida de sogros, tudo em mistura de afectos, pois, os pais do meu cônjuge, meus pais eram. 

Foi fluindo o tempo, mas logo novos amores rebentaram e se introduziram na minha relação afectivo-conjugal, foram elas e eles, em tons de rosa e azul-bebé, uma loucura, um vibrar de emoções e alegrias, só acinzentado quando alguns dos amores mais velhos se lembravam que tinham chegado ao fim da viagem da vida e partiam…

Anos mais tarde e em consequência de outros casamentos, foram-se alargando os laços familiares com novos elementos, género noras e genros, e consequente reprodução, mais uma leva de tons azul e rosa, cores que eu verdadeiramente abomino, mas que me deslumbram quando pego neles ao colo e os oiço chamarem-me de avô…

Família alargada, sim, três gerações em união, mais os parentes - não escrevi parentalidade, esta palavra não me quadra muito bem… - por isso eu me assumo como uma pessoa normal e tradicional, como filho, genro, pai, sogro e avô. Tudo em plenitude, nada light, mas como mandam as normas do bom senso, da razão, da tradição e da condição.

Também assumo que nunca atingi o meu êxtase político, em vão esperei um inteiro, total e perfeito, mas só me apareceram partidos, muitos partidos, partidos e fragilizados, canas rachadas ou em vias de se estilhaçarem ainda mais…Não obrigado!

Finalmente assumo-me como Cristão praticante, católico, apostólico e romano, professo um só Baptismo para a remissão dos pecados, espero a Ressurreição dos mortos e a Vida do Mundo que há-de vir. 

Ámen

Nota: posto este meu desabafo sei que ninguém me vem molestar, não sou sequer digno de que alguns «media» me desanquem, mas sei que represento a grande maioria da população portuguesa, só que de tão normais que nos sentimos temo-nos esquecido de nos assumir…

Manuel M. de Vasconcelos





Galileu não se enganou

Galileu, o conhecido cientista italiano (1564-1642), tem agora a sua hipótese confirmada experimentalmente: os objetos caem todos ao mesmo tempo, se lançados simultaneamente e da mesma altura, e se livres da resistência do ar. Foi feita a experiência, recentemente, com uma bola de boliche e algumas penas de avestruz. No primeiro lançamento, a bola de madeira caiu velozmente sobre uma caixa com areia enquanto as penas se espalharam lentamente em volta. O segundo lançamento foi feito no mesmo espaço, uma sala com 800 000 pés cúbicos, mas já sem ar. A operação para conseguir o vácuo, demorou três horas e foi dispendiosa. Desta vez, a bola e as penas caíram simultaneamente e em conjunto, isto é, as penas não se separaram entre si nem da bola de boliche, pois não havia ar que lhes opusesse resistência ou as afastasse. É excitante, sobretudo para os cientistas, descobrir ou intuir os segredos da criação e, depois, constatar experimentalmente que as suas hipóteses são verdadeiras.

O mundo, a criação, não é apenas material, é também espiritual. O próprio homem não é apenas corpo, mas também espírito. Por enquanto, só nos apercebemos da íntima relação existente entre o nosso corpo e o nosso espírito quando, por exemplo, sentimos o corpo abatido ao sofrermos um desgosto, ou quando perdemos temporariamente a memória após uma operação cirúrgica ou um acidente. Depois da morte, a nossa relação com os seres espirituais será bem real, e de enorme felicidade, se tivermos vivido segundo os desígnios do Criador. Só então poderemos constatar a verdade daquilo que ouvimos de Jesus que, mais do que Galileu, não se engana nem nos engana.

Na Quaresma, somos incentivados a ser corajosos e generosos: corajosos para agir com valentia, fazendo o que nos custa (mortificação, sacrifício) e generosos, oferecendo aos outros aquilo que poderíamos legitimamente reservar para nós (a esmola de bens materiais para os vivos; a esmola de bens espirituais por vivos e defuntos). É neste breve período de quarenta dias que somos convidados a esvaziar-nos do ar dos nossos egoísmos, para nos podermos ir aproximando da verdade. Talvez, como Galileu, necessitemos de mais de três séculos para nos libertarmos completamente desse ar que nos impede presenciar a Verdade cara a cara. Felizmente, temos bastante mais do que a hipótese de Galileu para fundamentar a nossa Fé. Os meios para chegar à perfeição necessária são excelentes e eficazes - os sacramentos -, bem melhores e seguros que a câmara de vazio usada no século XX: o Batismo limpa-nos do pecado original; a Confissão, tão útil e tão esquecida, apaga os pecados veniais e mortais; a Eucaristia, recebida em estado de graça, apaga os pecados veniais e dá-nos energia para desenvolver as virtudes; a Confirmação fortalece a nossa alma na defesa da Fé; o Matrimónio - sacramento grande, como lhe chama S. Paulo, por representar a união de Cristo com a sua Igreja – ajuda os cônjuges a manter o seu compromisso mútuo de amor, generosidade e fidelidade; a Ordem, confere poderes divinos aos homens que, generosamente, o recebem: eles podem perdoar os pecados no sacramento da confissão e trazer Deus à terra em cada Missa que celebram; a Unção de Enfermos confere as graças necessárias para sofrer com paciência os sofrimentos, para vencer as tentações próprias da doença e da agonia e, se Deus achar ser para bem, conceder mais algum tempo de vida com saúde.

Com esta experiência de vida, estamos mais seguros do que Galileu.

Isabel Vasco Costa



Ideologia do género ou uma nova patologia?

Quando ouvimos falar em ideologia de género, pensamos que estamos diante de uma situação definitiva. Tenho ouvido muitos se manifestarem contra e tantos outros se manifestarem a favor. O que muitos talvez não saibam é que a ideologia de género, faz parte de uma agenda muito bem montada; dentro da qual há diversos passos e momentos, que aos poucos vai-se instaurando nas mentalidades e culturas.

Em 1885 foi dado o primeiro dos passos para a elaboração desta agenda. O trabalho desenvolvido por Lewis Henry Morgan e continuado por Friedrich Engels, foi muito bem tematizado. Primeiro, colocar em questão o valor da família como estrutura privada e capaz de formar a consciência da pessoa. Tanto um como o outro criaram um modelo no qual as pessoas dentro da família, não tivessem nenhum tipo de relação, porque eliminando as relações familiares também se destrói-se o conceito de pessoa.

O segundo passo foi dado em 1968, Robert Stoller, define e especifica a necessidade de fortalecer o conceito e a definição do termo género, em detrimento da definição do termo sexo. Segundo Stoller, utilizar o termo sexo masculino e feminino constituía uma séria problemática para a identidade sexual do próprio individuo, pelo que deveria ser substituído pelo termo género.

Em 1975, Elisabeth Clarke e Simone de Beauvoir, surgem como as maiores promotoras do feminismo ocidental, no qual a ideologia de género e o aparecimento de um novo sexo, atrai a atenção sobre a situação que se vivia desde os alvores do século XX quando, em Nova Iorque, um grupo de mulheres decidiu manifestaram-se nas ruas exigindo o direito ao sufrágio. Este movimento ficou conhecido como “Feminismo ideológico”.

Desde o ano de 1999, iniciamos um quarto momento, que é aquele no qual nos encontramos. Diante da situação vivida pelos suposto apelativos do género e pelos novos movimentos sexuais, no século XXI, tornou-se mais relevante o processo educativo nas escolas em que países como Holanda, Bélgica e Suécia começaram a implementar. 

Este quarto ponto da agenda pretende criar um sistema, pedagógico dentro do qual um dos passos, seja permitir que a pessoa não se sinta reconhecida na sua natureza e que com o passar do tempo, ela mesma possa descobrir qual é o seu estado natural e então “decidir” se é homem ou mulher. Esta suposta decisão, vem acompanhada de um aniquilamento da pessoa, substituindo-a por alguém sem identidade. Nos países supra citados, hoje as pessoas que optaram por este sistema, não conseguem encontrar uma forma acertada para o tal desenvolvimento da identidade; pois os estudiosos da ideologia de género não tem a certeza se ela terá em conta a liberdade genuína da pessoa, que nasce nas mesmas relações, que eles se permitem proibirem. 

Parece que existem ainda mais quatro passos a serem cumpridos e bem desenhados dentro desta agenda. O próximo será a desconstrução do significado do termo pessoa e até mesmo o termo indivíduo, sendo assim quem decide no seu lugar já não é alguém autónomo, mas sim alguém que poderia deixar nas mãos de um outro essa decisão.

O seguinte passo seria o mais rápido de todos. Eliminada a pessoa, eliminam-se também as suas relações e os seus efeitos. Uma tendência forte actualmente é o  chamado “poliamor”. Onde as pessoas podem estabelecer matrimónios ou uniões de facto, mas sempre abertas à outro tipo de relações, sem compromisso definitivo ou sem a exigência de estabilidade ou unicidade.

O último dos itens desta agenda é de caráter anti-metafísico. Qualquer tipo de relação com a transcendência, com a religião, ou com o Deus Criador, deve ser simplesmente anulada. O homem do século XXI quer ser o dono do seu corpo, mas perderá o seu bem mais precioso - a sua identidade e a grandeza de ser pessoa. 

Os passos a seguir só serão evitados se percebemos que existe algo mais profundo, perverso e maquiavélico quando nos falam em ideologia de género.

“A ideologia de género é uma tentativa de afirmar que não existe uma identidade biológica em relação à sexualidade. Quer dizer que o sujeito, quando nasce, não é homem nem mulher, não possui um sexo masculino ou feminino definido, pois, segundo os ideólogos do género, isso é uma construção social”. Por favor não se ria e acredite que não ensandeci, é disto mesmo que nos querem convencer…

Se lhe parece que isto é uma brincadeira de mau gosto, ou algo muito ténue ou inócuo, esqueça por favor, porque é uma poderosa estratégia de destruição humana e, por isso, aqui fica um alerta muito sério acerca desta agenda diabolicamente construída que se vem paulatina e sorrateiramente instaurando nas mentalidades e culturas mundiais.

Alerta, o perigo espreita e o inimigo está entre nós, com palavras meigas, insinuações confusas e sorrisos falsos, minando e corroendo as nossas mentalidades através de alguns órgãos de informação, pré-programados para venderem a mensagem, por isso esteja atento e vigilante para não se deixar ludibriar por quem e quando menos se espera.

Leitor avisado vale por dois…

Maria d´Oliveira






Eutanásia: O que diz a Igreja




Dia Mundial da Mulher

Há mulheres…e mulheres. Há as que guiam, e as que se deixam guiar. Há as que vivem e as que deixam a vida passar. Mas em todos os casos, as mulheres são marcantes. Basta pararmos para pensar um pouco nas mulheres que nos rodeiam ou naquelas que já aqui não desfilam, para constatarmos que todas elas nos marcam. 

Este paralelo espelha-se em tudo. Na vida real e na ficção, no presente e no passado. Há sempre uma mulher a quem louvamos e invocamos. E esta história de fascinação começa logo no dia do nosso nascimento, pela presença dessa pessoa tão importante na vida de todos: a mãe. Sabemos que o ser mãe não se aprende, e que é indiscutível que existem mães melhores que outras. Mas é um fato, que, com todas as suas ações, marcam a vida dos filhos. Já bem antes desta nossa história, foi também a mãe que tomou um relevo religioso importante. Maria, a mãe de Jesus, símbolo de amor, dedicação e louvou, cujo exemplo perdura durante mais de dois mil anos. Que grande mulher!

Mas existem grandes mulheres por todo o mundo. Centenas, milhares, milhões. Não me referiu às modelos e atrizes, princesas e rainhas que figuram nas capas das revistas mais importantes do mundo. Falo de ti, da tua vizinha, da tua irmã, prima, amiga. Todas essas grandes mulheres que conheces. Todas as que trabalham arduamente e vivem para os outros, os filhos, os maridos, os sobrinhos, os netos, os amigos. Todas as que sorriem para as pessoas que passam na rua, que cumprimentam os vizinhos. Aquelas que põem a sua melhor cara só pelo fato de estares aí. As que sonham eternamente e não baixam os braços, as que vivem com alegria e paixão o dia-a-dia. As que se entregam aos demais. As que mesmo doentes sorriem. 

São todas essas mulheres que completam o dia e são elas que elevam o nome da humanidade. São essas o exemplo quotidiano a seguir. Não as percas de vista, mas mais, sê como elas. Não por imitação, mas por intenção, devoção. Porque sabes que só assim serás uma grande mulher, uma mulher como foram muitas ao longo dos séculos e como serão por muitos mais. Uma mulher integra, inteira e dedicada.

A todas as que vivem o seu dia-a-dia com tão intensa luz, os meus mais sinceros parabéns porque dia 8 é o vosso dia, e é por vós que ele existe.
Ana Esteves



O trabalho da Mulher

Trabalhadoramultitasking
(Perita em fazer muitas tarefas e fundamental nas dinâmicas familiares).


O trabalho da casa é “um serviço público” por excelência, pois o LAR é o melhor “ministério do bem-estar social e da prevenção da delinquência”.

Com o rolar dos tempos passou a ser “politicamente correcto” desvalorizar este tipo de serviço. O mundo economicista só valoriza o dinheiro, logo o trabalho que não é pago, não tem valor. A “dona de casa” não é remunerada, não tem direito a férias, subsídios, fins-de-semana, baixas por doença, nem a reduções na carga horária - 24 horas é o seu limite - logo é considerada pela “elite trabalhadora” como “um zero à esquerda”. 

Muito se tem discutido sobre o papel da mulher que trabalha em casa, mas “esta gestora do lar” deverá começar a reivindicar os salários que lhe competem, simplesmente por uma questão de justiça social…

Aos preços que correm no mercado do trabalho, avaliando as competências que elas aplicam diariamente, e considerando as multifunções que desempenham: cozinheira, motorista, professora, psicóloga, contabilista, gestora, técnica de limpeza, técnica de manutenção, lavandaria, baby-sitter e ainda “almofada antisstress”, na medida em que está sempre pronta a amortecer choques, evitar conflitos e curto-circuitos…

Feitas bem as continhas, estima-se que uma mulher cozinha 14 horas semanais a 10 euros/hora; Faz de motorista, para crianças grandes e pequenas, 8 horas semanais a 10 euros/hora; Dá 13 horas de explicações por semana, ao mesmo valor. 

Para resolver as várias crises familiares transforma-se em psicóloga pelo menos 7 horas por semana, a 28 euros à hora; como gestora em full-time, organizando os dias dos filhos mais novos e gerindo toda a estratégia da casa, a 40 euros à hora, etc, etc.

Não quero assustar os meus queridos leitores, mas aconselho a fazerem bem as contas e a verificarem como oficialmente o sector mais improdutivo da sociedade é um recurso de enormes valias que merece não só o nosso reconhecimento como também protecção, respeito e muita, muita admiração.

Maria Susana Mexia




Parar, pensar e rezar!

“O homem, esmagado pelas suas ocupações, com tudo se ocupa menos com viver” Séneca

A cadência dos nossos dias tornou-se vertiginosa. Enredados num conjunto de obrigações, compromissos sociais e culturais, trabalho, família e amigos, não esquecendo os imprevistos que também nos batem à porta, sentimos o sufoco e o peso do stress, percebemos que abrandar o ritmo era o aconselhado mas, aparentemente, impossível. Todavia, é nestas circunstâncias, que mais imperioso se torna – Parar, pensar e rezar.

Pensar na nossa vida tão dinâmica e agitada, cheia de coisas e, por vezes, tão vazia e sem sentido; parar, procurar um pouco de silêncio e paz longe do bulício do quotidiano, longe da materialidade e do consumismo que nos amarra e empobrece, para equacionarmos o que está bem ou importa mudar.

Parar enquanto é tempo, arrumar as ideias, pensar no futuro e preparar a eternidade.

“E passam os anos sem que nos dêmos conta, como se fossem estações em que o comboio não pára” R. Knox 

A cultura materialista que se desenvolveu e a morte de Deus por decreto filosófico, projectaram o homem num vazio existencial, sem profundidade sobrenatural, que lhe tira toda a beleza da presença divina na vida dos homens e no mundo.

“Todos nós experimentamos, quase palpavelmente, os tristes efeitos desta sujeição cega ao mero “consumo”: antes de tudo, uma forma de materialismo crasso; e, ao mesmo tempo, uma insatisfação radical, (…) porque quanto mais se tem mais se deseja, enquanto as aspirações mais profundas restam insatisfeitas, e talvez fiquem mesmo sufocados” João Paulo II

Mas, porque tudo o que existe no mundo é bom, há que saber usar da nossa liberdade para usufruir dos bens terrenos sem abdicar da complementaridade divina que lhe preside, assiste e dá sentido.

“As pessoas, geralmente, têm uma visão plana, pegada à terra, de duas dimensões. – Quando a tua vida for sobrenatural, obterás de Deus a terceira dimensão: a altura. E, com ela, o relevo, o peso e o volume” S. Josemaria Escrivá

Nesta busca da terceira dimensão -Deus, o que importa é falar com Ele, em silêncio e oração, como dois amigos que se encontram para falarem um com o outro e contarem alegrias e tristezas, preocupações e desilusões, expectativas e projectos, falar de tudo o que vai na alma. Afastar-se do mundo e rezar, uns dias longe de tudo em Retiro Espiritual.

“Pôr ordem no mundo sozinhos, sem Deus; contar apenas com as próprias capacidades; reconhecer como verdadeiras apenas as realidades políticas e materiais e deixar de lado Deus, como uma ilusão, tal é a tentação que de múltiplas formas nos ameaça”. Joseph Ratzinger

Uns dias de retiro ajudam a serenar numa atitude de silencia interior e exterior, acompanhados connosco e com Deus.

Fechar as portas dos sentidos, esquecer as preocupações, dar prioridade à actividade interior, ao exame de consciência, à reflexão pausada sobre a nossa vida, feita na presença de Deus.

“Começo sempre a rezar em silêncio, porque Deus fala no silêncio do coração. Deus é amigo do silêncio: necessitamos de escutar Deus, porque o que importa não é o que cada um de nós diz, mas o que Ele nos diz e nos transmite” Teresa de Calcutá

O benefício de uns dias de retiro bem aproveitado, os seus frutos, virão espontaneamente e com eles a graça de Deus. A nossa vida melhora, a nossa atitude face aos outros também e a visão plana e a preto e branco ganha uma terceira e colorida dimensão, a única que lhe pode dar sentido. 

“Ouve! Deixa por um momento as tuas ocupações habituais, entra por um instante dentro de ti mesmo, longe do tumulto dos teus pensamentos. Lança para longe de ti as preocupações que te esgotam. Dedica algum tempo a Deus e descansa, mesmo que seja só por um momento, na sua presença. Entra nos aposentos da tua alma: exclui tudo, menos Deus e o que possa ajudar-te a procurá-Lo. Assim, fechadas todas as portas, vai atrás d´Ele. Diz a Deus: Senhor, procuro o teu rosto, desejo ver o teu rosto” S. Boaventura

Fazer retiro é abrir uma janela no tempo e contemplar a paisagem que nos espera depois da vida, é perspectivar o além, é ligar o nosso mundo ao mundo sobrenatural onde está o ar puro, sereno e doce da eternidade.

Maria Susana Mexia




Dia da mulher

Recebi hoje, dia 8 de março, os parabéns de uma senhora, estilo sem-abrigo e, perante o meu espanto, disse-me que era o dia da mulher e, como eu era mulher, dava- me os parabéns. Não pediu esmola, apenas sorriu e disse: parabéns. Retribui e pensei: mesmo na sua situação sente-se orgulhosa por ser mulher. Eu também me sinto orgulhosa e relembro com muito orgulho uma mulher que eu admiro muito: Eva, a mãe de todos nós, a mãe  de todas as gerações. 

Segundo o Génesis, no sexto dia, depois de ter criado o  Céu e a Terra, Deus criou Adão. Em hebraico, Adão  significa apenas humano. Humano, por oposição aos animais. 

O homem vivia num jardim maravilhoso, com os animais que passavam diante dele aos pares, a quem ele dava nomes. Deus deu-lhe o dom da fala. Mas com quem falava ele? Ou se falava, quem lhe respondia? É este o primeiro sentimento vivido pelo ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus: a solidão. 

Será que o homem teve consciência da sua solidão? A Bíblia apenas diz que Deus observou Adão no jardim magnífico por Si criado e disse: não é bom que o homem esteja só. E assim Deus criou um outro ser humano, a partir do primeiro. E quando Adão acordou e o viu, chamou-lhe mulher. E a partir de agora surge um novo sentimento: o companheirismo. O homem e a mulher são companheiros, podem falar um com o outro.

Cecília Rezende



A Voz das Ruas

Amigo aqui da Redação, cuja visita sempre torna nosso ambiente mais culto e ainda mais instigante, me perguntou se conhecia as razões que levaram o Homo Sapiens a vencer o Homo Erectus. Deus meu! Acho que faltei nestas aulas de antropologia. Não, não sabia. Segundo ele a explicação, proposta por arqueólogos, passa por uma flauta rudimentar. Que seria usada pelos Sapiens como um meio tão primitivo quanto efetivo de comunicação. Fico a imaginar o som deste instrumento como um silvo de apito, cuja intensidade e frequência a tornariam meio muito eficiente de localização, informação estratégica e comando de ataque. Será que foi assim? Pelo sim, pelo não, me contento com a obviedade das denominações: um de nossos ancestrais, o Erectus, colocara-se sobre os dois pés, enquanto o outro, o Sapiens, mantivera esta atitude mas tinha capacitações mentais superiores. Não podia dar em outra coisa, com ou sem flauta.

Ora, reza a lenda dos irmãos Grim que Hamelin comandou um exército de ratos pelo som de sua flauta, que se bem utilizada produz música elevada, evocativa. Ao transportar gansos em meu carro tive a oportunidade de perceber que a música os aquietava no percurso. Estou falando de música, naturalmente, não de barulho. A história da flauta, em si, pode não passar de uma ousadia de arqueólogos, gente, digamos assim, também bastante imaginativa. O que há de subjacente nisto, entretanto, é o aspecto da organização, do comando. Os Sapiens patrolaram os Erectus pelo espírito associativo, pela coesão grupal. Era o início dos exércitos e da política.

Não tenho especial interesse por política e a vejo como um mal necessário, um ajustamento que nos livra da barbárie e limita um pouco os estragos dos tantos psicopatas que integram governos no mundo e influenciam seu destino. A matéria política, portanto, não está na cesta de meus assuntos prediletos, e o faz ainda menos quanto mais amiudada, rasteira e hipócrita. Como, porém,a perplexidade da sociedade nos dias que correm não diminui,acabo refletindo a respeito, goste ou não. Nossos políticos, em geral, são ruins? Ora, não percamos tempo com obviedades.

Isto posto, considero uma injustiça colocar apenas os políticos no banco dos réus e me pergunto até onde existe condição moral para este julgamento pela sociedade. Explico melhor. Criamos um programa chamado A Voz das Ruas. Um equipamento móvel, com uma bancada e uma câmera, destinava-se à gravação de depoimentos espontâneos em praças, escolas e outros espaços públicos. Qualquer pessoa dispunha de dois minutos para dizer o que bem entendesse. Imaginávamos que seria um sucesso, afinal os depoimentos seriam apresentados por várias mídias de nosso grupo de comunicação. Para nossa surpresa, tal não se deu. Quais as causas maiores? Não tenho a resposta científica, mas penso que seja triplice: falta de clareza acerca do que reivindicar, timidez pelo despreparo verbal e medo. As duas primeiras causas são óbvias. A terceira, porém, tornou-se evidente numa das gravações, na praça central da cidade. Uma senhora relutava em falar. O repórter, delicadamente, insistiu. Não posso, moço!, respondeu. Por que não podia? Ela pedira não-sei-o-quê para o prefeito da época e temia que tocar aquele trombone acabasse com suas chances de conquistar a benesse.

Podemos chamar este medo de covardia oportunista? Ou seria apenas hipocrisia? Seja como for, quem pede favores políticos perde inteiramente o poder de criticar o padrinho. Morre no ato a autoridade de quem pretendia mudar o mundo e apenas reproduz seus defeitos. Esta historieta serve para ilustrar o quão difícil é chegar ao fio da meada. O que mudar e por onde começar? Nossos dramas vão muito além de má gestão e corrupção. Estão nas nossas entranhas.

Como se sabe, a fala é uma das funções mais elevadas e diferencia o homem no reino animal. Enquanto os outros grunhem, piam, latem, miam, grasnam, o homem fala. Quando uma sociedade se expressa mal, quando se recusa a falar o que deveria, cai certamente um degrau na escala possível. Torna-se, digamos assim, menos Sapiens. Quando olho para nosso atraso, nossas mazelas, nossa atávica tendência de copiar, nossa trágica vocação para a subserviência e consolada disposição de manter o país em situação periférica, sou tentado a apelar para a figura inicial. Fornecedores de matérias primas para o mundo e de alimentos, como soja e carne, exportamos o que tem pouco valor. Para importar muita coisa que tem elevado valor agregado. Será que temos uma vocação psicossocial de Homo Erectus, implacavelmente batidos pelos Homo Sapiens dos países líderes? Tomara que não, mas é bom que se ache nossa flauta por aí e que não seja usada para conduzir ratos, cuja espinha dorsal não tem sequer estrutura para chegar à condição Erectus. Ratos que marcham para a morte no rio do cotidiano, onde mergulham hipnotizados pelo circo capitalista, pelo sofrimento físico e pela miséria intelectual.

J. B. Teixeira





Mulher - Uma Luz de Esperança na Família e no Mundo

Sim, às vezes penso que corremos demais, sem tempo para o que é mais importante. Ontem fui assistir a uma missa que muito me fez pensar. A primeira leitura do livro de Ben-Sirá, impressionou-me pela sua beleza incontestável fazendo-me recordar que recentemente tinha escrito um texto denominado “Feliz Dia do Pai”. Talvez tivesse chegado o momento de escrever outro, desta vez, dando ênfase ao papel da mulher na família e no mundo, contribuindo através da sua peculiaridade feminina para a humanização da sociedade e do seu bem-estar. Mas voltemos ao texto da leitura: “…Eu sou a mãe do amor formoso, do temor, da ciência e da santa esperança. Em mim está toda a graça do caminho e da verdade, em mim está toda a esperança da vida e da virtude. Vinde a mim todos vós que me desejais e saciai-vos com os meus frutos, porque pensar em mim é mais doce que o mel e a minha herança é mais doce que os favos de mel…”. Há uns anos atrás, na cidade de Pamplona, no Campus universitário, deparei-me com uma pequena ermida com uma imagem de Nossa Senhora que tinha precisamente inscrito o nome: “Mãe do Amor Formoso”. Era um local de passagem e muitas pessoas paravam, a caminho das aulas ou do trabalho, não deixando de fazer uma pausa para a saudar, dirigir-lhe umas palavras, uma oração, um pedido, rezar o terço… Enquanto permaneci em Pamplona, adquiri o hábito de todos os dias lhe fazer uma visita que muito me reconfortava, já que me encontrava nesta cidade, para acompanhar um familiar muito doente.

Pela minha mente surgiu também uma deslocação a Roma para participar no III Encontro Mundial do Papa com as Famílias subordinado ao tema “Os filhos, primavera da família e da sociedade”, que nos introduz no mistério da família cristã, chamada pelo Conselho Vaticano II de “igreja doméstica” e pelo S. João Paulo II de “santuário da vida”. A Família de Nazaré, “irradia uma luz de esperança também sobre a realidade de hoje”. Em Nazaré nasceu “a primavera da vida humana do Filho de Deus, no momento em que Ele foi concebido por obra do Espírito Santo no seio da Virgem Maria. E entre as paredes hospitaleiras da Casa de Nazaré” desenvolveu-se toda a infância de Jesus… Este mistério ensina portanto “todas as famílias a gerar e a educar os próprios filhos, cooperando de forma admirável na obra do Criador e oferecendo ao mundo, em cada criança, um novo sorriso”. Foram dias de muitos encontros, formação em prol da nobre e urgente causa da Família, e que me ajudaram a sentir, cada vez mais, a extrema importância de prevenir as situações de risco, de reforçar o núcleo familiar, a consolidar a formação de pais e educadores, a procurar novos caminhos, a atualizar conhecimentos para evitar as ruturas nas relações interpessoais ou na sociedade, causando o desemprego, a pobreza, etc.

A família é a base da vivência de todos nós, sendo um dos bens mais preciosos da humanidade. É a primeira unidade social, onde se estabelecem os primeiros contactos biológicos e afetivos e dela dependemos não só até à idade da emancipação mas pela vida fora em diferentes situações e momentos. “O lar familiar permanece aquela escola de vida onde as tensões entre autonomia e comunhão, unidade e diferença, são vencidas a um nível privilegiado e original. Na Família existe uma fonte de humanidade de onde emanam as melhores energias criadoras do tecido social, que importa cada Estado zelosamente preservar”.

Há algum tempo atrás, encontrava-me no aeroporto J. Kennedy, em Nova Iorque. Tinha participado numa Sessão sobre o Envelhecimento na sede das Nações Unidas. O tempo estava péssimo, com um nevão enorme, pelo que houve atrasos. Escrevo isto, porque me chamou muito a atenção, as centenas e centenas de pessoas que vinham de todas as partes do mundo, que se entrecruzavam, alguns com as suas crianças, alguns haveres, as suas diferenças culturais, que me fizeram recordar os problemas da migração, dos refugiados, da enorme vastidão de problemáticas que hoje em dia afetam o mundo, e ainda a relação de todos eles com os Direitos da Pessoa e da Família e a promoção do seu bem-estar, com uma atenção particular para com as crianças, primavera da vida e da sociedade.

Uma das ações mais importantes que as mulheres têm dinamizado é o de chamar a atenção para a necessidade de melhores políticas para a família. Há estudos que revelam que a envolvência das mulheres na estruturação dos programas políticos tornaram possível contemplar com mais cuidado os problemas sociais e familiares do dia-a-dia. Tais aspetos prendem-se com o facto de tradicionalmente a mulher constituir o centro do núcleo familiar. A participação da mulher em todos os âmbitos da sociedade e do trabalho, constitui uma questão de justiça, sendo um enorme avanço no progresso da humanidade, se bem que coloque outros problemas que ainda carecem de respostas. As mulheres são, por natureza, diferentes dos homens, possuindo características e especificidades diversas, tais como a entrega progressiva e constante para com os outros, contribuindo positivamente nas funções que desempenham na sociedade e na política. O papel das mulheres não consiste, de todo, em tentar imitar os homens, mas sim, em serem elas próprias, com a sua identidade feminina, os seus valores e as suas competências. No entanto a sua participação levanta questões como seja a educação dos filhos, a gestão do lar e todos os aspetos práticos e económicos da família, sendo fundamental encontrar mecanismos facilitadores da conciliação da vida familiar com a vida profissional. Torna-se justo dar destaque ao papel da mulher na família e no mundo, aos seus contributos ao longo dos tempos, o que tem permitido promover o bem-estar da humanidade, em complementaridade com o papel do homem.

Santa Maria, Mãe do Amor Formoso, Rainha da Família, intercedei por todas as famílias enquanto células base da sociedade.

Maria Helena Paes




Eutanásia – Quanto vale uma vida?

Em alguns discursos e mentalidades, o valor da vida tem vários pesos, medidas e valores.

Será que um bebé saudável de uma família rica, em que foi profundamente desejado, tem um valor elevadíssimo comparado com um bebé não desejado que nasce numa família pobre, em que a família não tem condições de subsistência e/ou vive num país em guerra? 

Talvez esse bebé que vive num país pobre ou em guerra, segundo critérios cada vez mais distorcidos sobre dignidade humana fosse “eutanasiado” à nascença, pois assim, não sofreria: nem fome, nem guerra, nem coisa nenhuma! Mas a vida, com todos os seus contornos não é uma opção que se coloca numa quadricula, a vida é um valor absoluto. Todas as opções que não respeitem este direito são aberrantes. 

Todos nós temos na nossa cabeça, imagens de crianças desnutridas, cheias de moscas, sem força para sequer chorar pelos incómodos, dores, fome extrema, pela sede que lhes seca as entranhas. E a nós, o que secam essas imagens? Será que secam o reconhecimento da dignidade humana? Secam as lágrimas? Secam a esperança?

Quanto vale um velho com uma boa reforma? Quanto vale um velho mendigo? Quanto vale um homem ativo? Quanto vale um intelectual? 

Pois é, quanto vale? Falar de valores quando pensamos em vida humana remete-nos para o tempo da escravatura, em que uma pessoa tinha realmente um valor monetário. A abolição da mesma, demonstra que percebemos que a vida não tem preço, e a liberdade de a viver também não. 

Mas, quando queremos colocar critérios “clínicos” para eutanasiar (matar) pessoas de forma legal é não mais que uma escravatura. É um retrocesso civilizacional e não nenhum avanço. A escravatura do valor monetário. Quanto vale um doente crónico em termos monetários? Este é o pensamento que leva à eutanásia enquanto recurso. Não tenhamos ilusões. 

Quando colocamos a vida como um valor absoluto e inviolável, e não como um valor monetário ou utilitário não temos muitas dúvidas que todos nós deveríamos lutar até ao fim das nossas forças pela dignidade humana. 

E a dignidade humana, existe até ao ultimo sopro de vida. Em 11 anos de serviço como fisioterapeuta conheci incontáveis casos de doentes respiratórios crónicos. Muitos deles em estados muito graves e terminais. Doentes com vidas em que o sofrimento estava presente diariamente, em cada instante. 

O que vi nessas vidas? O intenso sofrimento, a intensa luta e as tantas conquistas. Pequenas, grandes conquistas que tinha o privilégio de ajudar a construir enquanto fisioterapeuta. Todas essas pessoas ensinaram-me de diferentes modos, que com saúde ou doente; com o olhar posto numa vida longa, ou numa vida curta o que conta em qualquer uma das situações são as pessoas. As pessoas que amamos, que amámos, que nos ajudam a superar os vários momentos difíceis, que queremos e nos querem bem. 

O que aprendi com essas vidas? O poder do amor. Quantas vidas conheci, quantas histórias me contaram, arrependimentos, angústias, alegrias. De tudo o que ouvi, sei com muita clareza que no fim da vida nos arrependemos: do que não se amou; do que se deixou de fazer pelo valor do dinheiro; quando o “ter” se elevou na vida pessoal em vez do “ser” e do “estar com quem se ama”.

Ninguém em todos esses anos quis morrer, quis separar-se dos que amava para aliviar o sofrimento, se todas essas pessoas que conheci pudessem gritar diziam-nos que o que vale na vida é: o amor. E isso dá-lhe dignidade até ao ultimo suspiro, até ao ultimo momento. Morrer é tão natural como nascer. Por vezes, o percurso é curto, outras é longo e penoso, mas encurtar esse percurso em nada melhora a dignidade de quem adoeceu, apenas pode poupar uns tostões mas não a nossa consciência!

Como mulher, mãe e profissional de saúde, não posso e não quero uma mão que trata os doentes e como oferta tem um “alívio do sofrimento”. Se um dia for eu a doente quero uma mão que segura a minha no sofrimento. Isso sim é cuidar, o resto é demagogia! 

“Cuidar é um dom. Continue sempre com esse dom.” -  Foram as únicas palavras que um dia um filho de uma querida doente terminal - que até hoje recordo o seu sorriso – me disse após a morte da sua mãe após longos anos de sofrimento.

Se cuidar é um dom … o que há de mais humano que cuidar? 

Helena Atalaia
Mestre em Fisioterapia
Especialidade Envelhecimento pela
Escola Superior de Saúde do Alcoitão.