sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

21 de Fevereiro dia Internacional da Língua Materna

No mundo atual, abalado por uma crise económica que nos faz repensar as bases em que assenta toda a organização da sociedade, uma ideia há que vai alastrando como força imparável: a da supremacia da cultura sobre a economia e a política. E essa supremacia só pode exercer‑se, quando é veiculada por um instrumento de verdadeira comunicação entre os homens. Esse instrumento é a língua, ferramenta imprescindível, mas difícil de manejar. O seu primeiro objetivo é servir, ser útil: é ela que constitui o código de todas as nossas relações. Através dela, exprimimos ideias, sentimentos, relações pessoais e sociais.

Como diz Vergílio Ferreira, uma língua é o lugar de onde se vê o mundo e em que se traçam os limites do nosso pensar e sentir.

A nossa língua é o português, falado desde o século XVI, na Europa, na África, na Ásia, nas Américas, na Oceânia. Língua de cultura, capaz de expressar o pensamento abstrato, capaz de se adaptar às exigências da linguagem científica, à nova terminologia tecnológica, canal de literaturas diversas, que nos deve fazer sentir orgulhosos, língua de uma comunidade formada hoje por sete nações soberanas.

Este orgulho deve impelir‑nos a conhecê‑la, a saber maneja‑la, a saber utiliza‑la com clareza, com correção, para que traduza fielmente aquilo que se pensa.

O mundo é hoje uma aldeia global. Tudo o que acontece, seja o que for é imediatamente do conhecimento de todos. Se for uma catástrofe, tremor de terra ou acidente de viação as equipas de socorro de vários países partem em auxílio. Os cientistas reúnem-se em congressos. O mundo desloca-se de um lado para o outro a uma velocidade superior à do som. Como comunicar entre os falantes de línguas tão diversas e tão numerosas como as que existem no mundo? Como devem comunicar os pilotos dos aviões com as torres de controlo dos países que sobrevoam?   Construir uma língua, como se fez com o esperanto ou adotar a língua de um determinado país? Várias línguas foram utilizadas como linguagem universal, no decorrer dos séculos: grego, latim, francês e, atualmente, o inglês. Compreende-se que seja necessário. Mas há que contrariar este imperialismo linguístico, que é o abuso do inglês. Compreende-se que seja necessário nos casos que citei. Compreende-se também que, economistas, e engenheiros falando entre si, mesmo em língua materna, por facilidade e rapidez de comunicação usem os termos técnicos ingleses. Mas, já não se compreende que, em artigos de jornal, dirigidos ao grande público, os utilizem. Há que encontrar o equivalente na nossa língua materna. É o papel de gramáticos e linguistas encontrar essa correspondência. É de resto também responsabilidade do poder político defender o património inestimável que é a língua materna.

Por isso, a UNESCO instaurou em 1999 um Dia internacional da Língua materna, reconhecendo o Movimento pela língua comemorado desde 1952, no Bangladesh. No Dia do Movimento pela Língua, a polícia e o exército do Estado paquistanês, que na época ocupava o Bangladesh, abriram fogo sobre a multidão dos falantes de Bengali que se manifestavam pelos seus direitos linguísticos, em Dhaka.

O Dia internacional da língua materna  celebrou-se pela primeira vez em 21 de abril de 2000. Numa mensagem lida no decorrer da cerimónia da primeira manifestação, o Secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, deu todo o seu apoio a esta iniciativa, para que todos os povos tenham consciência do valor das suas línguas. A partir de aí, o Dia internacional da língua materna comemora-se todos os anos a 21 de fevereiro.

Para terminar, cito um excerto de um poema de António Ferreira, poeta do sec. XVI, que apenas usou nas suas obras a língua portuguesa, ao contrário dos escritores seus contemporâneos, que escreviam ora em castelhano, ora em português, incluindo Camões.

…Floreça, fale, cante, ouça-se e viva
A portuguesa língua e já onde for
Senhora vá de si, soberba e altiva.
António Ferreira (sec..XVI) Carta a Pedro Vaz de Caminha

Cecília Rezende






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