sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

A Escrita e as Palavras Têm Vida

Um livro de papel, um documento de pergaminho, um parágrafo, uma frase, uma anotação breve, todos têm vida própria, uma mensagem, uma história, um ensinamento. Que seria de nós sem as palavras escritas que constituem a representação da fala em suporte de pedra, madeira, pergaminho, papel, ou qualquer outro tipo de material físico? A sua importância para a história da humanidade é incontestável. Os registos, a documentação e o seu armazenamento em arquivos, em bibliotecas, permitem a consulta e a passagem da informação entre gerações, e constitui uma riqueza relevante a todos os níveis, sendo quase impensável a sua inexistência. O homem comunica através da escrita. A enorme riqueza da narrativa, das palavras, que veiculam uma vida própria, ou seja, uma mensagem ou ainda e apenas uma informação, são de uma riqueza ímpar, enquanto transmissoras do pensamento. Na realidade, esta ideia veio-me ao pensamento, ao observar a destruição de um livro. Num primeiro impulso quis evitá-lo, contudo o livro em causa já tinha cumprido a sua missão. Por analogia, pensei que, mesmo tudo o que tem vida é finito, um dia parte. Contudo, um livro pode permanecer pelos séculos fora, dependendo do seu interesse e da sua conservação.

Na qualidade de articulista, possuo a enorme graça de poder ‘brincar’ e usufruir desta arte milenar.

Veicular sonhos, histórias de vida, notícias, entre muitos outros, não constitui de todo tarefa fácil, mas constitui um privilégio muito gratificante. A pena desliza imparável rumo ao futuro, ajudando, de algum modo, à construção de novas ideias, à abertura de novos horizontes, ao registo dos acontecimentos, que a seu tempo poderão vir a fazer parte da História. Tudo está em movimento a uma enorme velocidade. Urge acompanhar a notícia velozmente, se possível, em cima do acontecimento. Amanhã já pode tornar-se tarde: o artigo já pode encontrar-se ultrapassado. Torna-se necessário construí-lo, o mais rapidamente possível, para que a mensagem ganhe sentido de oportunidade, e quem sabe, dar um pouco de sentido à vida das pessoas. 

Oh pena que tanto deslizas, levas nesse teu deslizar, com a tua tinta, o meu sofrimento e os meus sonhos, reais ou ficcionados, porque para um escritor até a ficção se pode tornar numa realidade camuflada, em que acredita mesmo ser verdade o que constrói e difunde. Vai pena, é necessário transmitir ao mundo o meu sentir. Quando era criança, devorava livros, muitas vezes às escondidas dos meus pais, talvez por não serem adequados à minha idade. Sonhava então em ser um dia escritora. Alguma vez terei procurado escrever versos. Mas reconheço, que não possuía esse dom. Outros desafios surgiram, a vida levar-me-ia por outros caminhos. Contudo, o sonho ficou oculto no meu subconsciente. Muitos anos mais tarde começaria a escrever. Na altura, era necessário organizar congressos, palestras, escolher os temas, fundamentar, preparar a comunicação, elaborar o relatório... E lentamente, fui ganhando um novo know-how, entusiasmo, ainda que com alguma insegurança, e o sonho, foi-se tornando uma realidade. Tinha ganho o gosto, não pela poesia, mas sim pela prosa. Dizem que as palavras, o vento as leva, mas peço, encarecidamente, que as minhas palavras, ao partirem, levem um pouco de mim, por esse mundo fora. A escrita, hoje em dia, faz parte integrante da minha vida. Que bom que possa conseguir, de algum modo, expressar-me, chegar até ao leitor, para partilhar mensagens. Assim, através da escrita mantenho-me viva, ainda que, eventualmente, possa já não me encontrar entre vós. A escrita tem essa virtude. Perdura depois de nós termos partido, numa prateleira de livraria, de uma casa, de uma biblioteca… Importa agora seguir em frente, viver com coragem, com muitos sonhos e muitas ideias que deem consistência à narrativa. Sempre colhemos algo pelo amor e entusiasmo que dedicámos a uma causa. Sobretudo, o mais importante é amar a Deus sobre todas as coisas. O resto vem por acréscimo.

Termino este artigo, com um exemplo do amor do autor pelos textos que escreveu. Diz-se que Camões conseguiu salvar, após um naufrágio, o seu manuscrito de “Os Lusíadas”, que viria a ser uma das mais importantes obras da língua portuguesa, e o seu autor o maior representante do Classicismo português, segurando-o com uma mão e nadando com a outra. 

Por fim, é chegado o momento de enaltecer as bibliotecas nacionais, enquanto estabelecimentos cuja função principal reside em salvaguardar, bem como tornar acessível, a herança cultural deixada pelos seus cidadãos, através da mais evoluída forma de pensamento, a escrita, que contribui para a construção da memória coletiva da nação: “A Escrita e as Palavras Têm Vida”.

Maria Helena Paes





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