sábado, 3 de fevereiro de 2018

Conversas familiares

Têm sorte as pessoas que, como eu, tiveram uma avó que contava reminiscências da família. Desta vez, talvez inspirada pelo centenário da guerra de 1914-1918, recordo um episódio vivido por meu avô durante este período. Talvez seja útil revelar o contexto familiar da época.

Meu bisavô, António Pedro da Costa, era armador, isto é, possuía uma empresa de navegação. Teve uma filha e cinco filhos, dos quais um morreu de escorbuto, no mar, aos 23 anos de idade. Preparou os dois rapazes mais velhos para se responsabilizarem pelo bom funcionamento dos escritórios, um em Lisboa, outro em Cabo Verde e os mais novos para navegar. O meu avô pertenceu ao grupo dos três que começavam a trabalhar aos 16 anos como moços de convés. A vida era dura e, como se viu, por vezes com risco de vida. Nos navios à vela a navegação fazia-se ao relento, por turnos, com o auxílio do óculo, do sextante, do sol, das estrelas...Que contraste com a vida de certo luxo na casa paterna.

Porém, aquele pai não se deixava corromper pela riqueza e exercia a justiça segundo as normas da companhia. Tinha por costume assistir à largada dos seus navios, mas num certo dia o navio não levantava âncora e a demora prolongava-se apesar da maré estar de feição. O bisavô perguntou ao comandante a razão de tanto atraso. Faltava um marinheiro. O bisavô quis saber de quem se tratava. “É o filho do senhor Costa”, respondeu o comandante. “Qual é o castigo previsto para um marinheiro que impede a saída dum navio?”. Após breve hesitação, a resposta chegou quase sussurrada: “Dez chicotadas”. Mas o bisavô foi firme: “Que a norma seja seguida”. E esse meu tio-avô foi castigado.

O episódio que passo a narrar passou-se com o meu avô Augusto durante a guerra de 1914-1918. Era já comandante e transportava um carregamento de ferro, extremamente valioso em tempo de conflito. O navio foi apanhado por enorme tempestade que partiu lhe o mastro grande deixando-o quase à deriva. A viagem seria longa e o avô determinou que se racionassem os alimentos e a água. Fez correr a voz de que a quem avistasse terra daria uma garrafa de rum. Passou um navio de outra companhia que ofereceu reboque, mas o avô recusou, pois metade da carga ficaria para a outra empresa. No entanto, pediu que avisassem os seus escritórios ao chegarem a Lisboa. Finalmente, avistaram terra e o marinheiro foi dar a boa notícia ao meu avô que logo lhe mandou vir a garrafa de rum. Mas o homem tinha um pedido a fazer: “Senhor comandante, não me dê a garrafa, mas deixe-me beber toda a água que eu quiser”.

Esta era a fibra dos homens de então; nem todos, é certo, mas estes convêm como exemplo.

A empresa de navegação familiar terminou pouco depois da segunda guerra mundial. Os seguros eram suportados pela própria companhia que perdeu vários navios durante a guerra. Além disso, começavam a surgir os barcos a vapor. Alfredo da Silva ainda propôs sociedade ao meu bisavô, mas a sua resposta foi de marinheiro orgulhoso:
- “Mais vale ser cabeça de sardinha do que rabo de pescada”. 

As recordações são uma bela herança, não acham?

Isabel Vasco Costa



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