sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

O nome de Deus

Há anos, passava num canal francês de televisão, todas as semanas, ao domingo, um programa  chamado Caldo de Cultura (Bouillon de Culture) animado por Bernard Pivot, um excelente jornalista literário, que convidava personalidades de referência do mundo cultural onde se discutiam diversos assuntos relacionados com a personagem convidada. No final, Bernard Pivot submetia o convidado  a um conjunto de perguntas, sempre as mesmas,  derivadas do questionário de Proust. A última era: se Deus existir, o que gostaria que Ele lhe dissesse quando aparecesse diante dEle, após a sua morte? Amin Maalouf, escritor libanês, radicado em França, autor entre outras obras de As Cruzadas vistas pelos Árabes, respondeu: estou inocente de todos os crimes cometidos em Meu nome.

Guerras, massacres, perseguições, só porque uns dizem Buda, outros Allah, outros Jesus, outros Jeová. E, no entanto, todos se referem ao mesmo Deus.

Quando Deus se manifestou a Moisés, no meio da sarça ardente, definiu-se como: Eu sou Aquele que é, sem outro nome. Mas os judeus, na sua relação intensíssima com Deus, vão-Lhe dar um nome, na sua língua: Yahve, ou Adonai ou ainda Elohim. Os judeus da diáspora, não veem qualquer inconveniente em que os simpatizantes do judaísmo, chamados prosélitos, no tempo do Império Romano, Lhe chamem em grego Kyrios, que quer dizer Senhor ou simplesmente Theos que quer dizer deus.

Recentemente, o papa Francisco publicou um livro a que deu o título de O nome de Deus é misericórdia .Aqui está uma denominação transversal a todos os conceitos de Deus, a todos os nomes que se Lhe queiram atribuir. Consultando o dicionário na palavra misericórdia, encontramos como definição: sentimento de dor e solidariedade em relação a alguém que sofre uma tragédia pessoal, acompanhado do desejo ou da disposição de ajudar a  salvar essa pessoa. 

Portanto, o conceito de misericórdia não se limita à solidariedade com quem sofre. É igualmente acompanhado do desejo de ajuda.

Diz o papa Francisco, no seu livro: A misericórdia é o primeiro atributo de Deus. Não existem situações das quais não podemos sair, não estamos condenados a enfrentar areias movediças.

Para Francisco, a mensagem mais importante de Jesus é a centralidade da misericórdia. Ela é, na realidade, o núcleo central da mensagem evangélica. Ela é o nome de Deus, o rosto com que se revelou plenamente em Jesus Cristo. Jesus era Deus, mas também era um homem, e na sua pessoa também se encontra a misericórdia humana. A justiça é mais justa, realizando-se realmente a si mesma, se acrescentar a misericórdia humana. Não significa isto abrir as portas das prisões. Significa, além de aplicar o justo castigo a quem prevarica, ajudá-lo a redimir-se. É o que já se vai realizando no mundo ocidental, com os programas de reabilitação e com a abolição progressiva da pena de morte.

No evangelho de S. João, há um episódio em que se manifesta plenamente a aplicação da justiça e da misericórdia ao mesmo tempo, em que Jesus  as aplica enquanto homem. Segundo a lei judaica, tal como ainda hoje no Islão, a mulher apanhada em adultério devia ser apedrejada até à morte. Tal como a blasfémia e a idolatria, o adultério era um pecado muito grave na Lei de Moisés e portanto punido com a morte. Os escribas e fariseus, ao apresentarem a mulher adúltera a Jesus e ao perguntarem –Lhe se a deviam apedrejar como ordenava a Lei, estavam a pô-Lo à prova: se Jesus mandasse obedecer à lei eles poderiam dizer ao povo: «vejam o que fez a esta pobre mulher!» Se mandasse perdoá-la seria acusado de «não cumprir a Lei». Todos conhecem o fim da história: quem estivesse sem pecado que atirasse a primeira pedra. E aqui entra outra face da misericórdia: o conhecimento de si mesmo. Nem sempre foi assim na história do cristianismo. Nem sempre a misericórdia acompanhou o rigor da interpretação do Evangelho de Jesus. Mas a Igreja foi mudando, assimilando o Iluminismo, analisando-se, adaptando-se, renovando-se.

E apareceu um homem que se quis chamar Francisco, como o Pobrezinho de Assis, que lhe veio dar a dimensão humana que lhe faltava.

Cecília Rezende







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