sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Tempos modernos

Já vai longe o tempo em que os navios negreiros cruzavam os mares levando em seus fétidos porões, antessala do inferno, uma pobre gente arrancada de suas raízes, de seu chão, de seu núcleo familiar e tribal. Os que sobreviviam à travessia devem ter se perguntado muitas vezes se não teria sido melhor o mar por sepultura, tal a crueldade de que pode ser capaz a humanidade. Só mesmo o instinto de sobrevivência e a capacidade de superação de um ser humano pode responder pela continuidade de uma vida sem liberdade. Parece que a escravidão é coisa do passado, mas como o homem é o lobo do homem, novas formas são permanentemente criadas e aperfeiçoadas para que uns tenham na terra o poder de verdadeiras divindades.

Quando visitei o que restou da Charqueada São João, em Pelotas, lugar bonito e aprazível, que serviu de locação para gravações de uma série televisiva, já não havia mais o cheiro do sangue do matadouro, dos restos em decomposição, nem o cheiro do sofrimento de jornadas inúteis dos negros escravos. Vivendo como bichos num canil ou num curral, tinham que ter ainda o bom comportamento de um redil. Exigir o silêncio e a obediência irrestrita de um escravo é como esperar que alguém segure, à mão livre, um ferro em brasa sem dar um pio. Refletir sobre a escravidão é sempre um atalho para compreender do que é capaz o homem.

O senhor de escravos determinava quem podia ou não ter filhos. Zelava por seu plantel com olhos postos na produção e na administração de gastos. Naquele tempo, sob a grande chaga da escravidão, um ser humano era apenas um bem semovente, como um terneiro ou um cavalo. O custo desta estrutura de produção, entretanto, foi se tornando cada vez maior, até porque novos ares sopravam das instâncias decisórias do mundo e os navios negreiros passaram a ser apreendidos. O preço de um escravo, em consequência, aumentou. Era uma vez mais a lógica das leis da oferta e da procura a dar o compasso. Faz tempo, mas nem tanto.

Tanto se critica a abolição tardia da escravidão no Brasil, em 1888, e pouco se lembra que nos Estados Unidos ela sobreviveu até o final da Guerra da Secessão, em 1865. Da mesma forma se esquece que a mais cruel segregação racial perdurou nos Estados Unidos até a segunda metade do século XX. Ainda em 1963, no estado do Alabama, dois jovens negros foram impedidos de frequentar a universidade estadual. Faz muito pouco tempo.

As guerras coloniais adentraram o século XX e inúmeros países só se tornaram independentes após as duas grandes guerras mundiais. Faz pouco tempo. Alguns já foram mais independentes, mas andaram pra trás. Antes da chegada de D.João VI, e portanto antes da abertura dos portos, em 1808, o Brasil não podia produzir manufaturados. Hoje não há impedimentos legais, mas o país se desindustrializa nitidamente e desnacionaliza o que resta, colocando-se de joelhos diante da indústria cujo controle se concentra no hemisfério norte. No passado os escravos nada tinham e utilizavam os instrumentos disponibilizados pela Casa Grande, que ficava ali, a metros da Senzala. Hoje a situação cada vez mais se aproxima disto pela desnacionalização, que em tempos modernos transporta a Casa Grande à distância de milhares de quilómetros.

O mais duro, nesta época de rendição intelectual e tecnológica, é perceber que ainda perdura, como braseiro sob cinzas, o mais tolo discurso ideológico, que tenta lançar nas costas dos maiorais do mundo uma culpa que em verdade é nossa. Em uma locução política, John Kennedy afirmou que o maior inimigo da verdade não é a mentira: o maior inimigo é o mito. Vivemos sob o mito de que coiotes nos devoram, dissimulando a realidade de que os lobos são brasileiros. Não tivéssemos tantos boçais, tantos traidores, não fôssemos tão lenientes, não fôssemos tão tíbios na defesa do óbvio, estaríamos em situação bem diversa, longe da agiotagem internacional.

Enquanto descobrimos que estamos atolados em areia movediça, enquanto a classe política se esfalfa em aprovar reformas e os brasileiros fazem mais furos nos cintos, nenhuma voz se faz ouvir, altissonante, para denunciar que somos escorchados pelos bancos enquanto legislamos sem quartel. O quadro, trágico porque nos ceifa um futuro melhor, me faz lembrar de uma frase do Barão Mayer Amshel Rothschild (1743-1812): “Dai-me o controle sobre a moeda de uma nação e não terei por que me preocupar com aqueles que fazem suas leis”

J. B. Teixeira

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