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domingo, 25 de março de 2018

Recordar os Bons Momentos

Ontem fui assistir à Santa Missa vespertina. Foi com algum grau de esforço porque não me sentia fisicamente nos melhores dias. Mas valeu muito a pena o esforço para retemperar as forças na casa do Pai. Nunca se sai de mãos vazias! Neste segundo domingo da Quaresma a leitura do Evangelho constitui um dos mais belos trechos do Evangelho. “Jesus tomou consigo a Pedro, Tiago e João…a um monte alto e transfigurou-Se diante deles. Os vestidos tornaram-se resplandecentes e alvíssimos, tanto que nenhuma lavadeira sobre a terra os poderia branquear. E apareceu-lhes Elias com Moisés a conversar com Jesus… Pedro disse a Jesus: Rabi é bom estarmos aqui…Formou-se então uma nuvem que os envolveu e da qual saiu uma voz: Este é o Meu Filho muito amado. Ouvi-o”. Frei Luís de Léon terá comentado: É Cristo o Amado, isto é, o que antes foi e agora é e será para sempre a coisa mais amada de todas. Já S. Tomás explica o significado da Transfiguração… que é como o sacramento da Ressureição apareceu toda a Trindade: o Pai na voz, o Filho no homem, e o Espírito Santo na claridade da nuvem… a antecipação não só da glorificação de Cristo, mas também da nossa… pois como refere S. Paulo, se somos filhos, também somos herdeiros. Quando saí da missa já me sentia melhor, tanto mais que havia inúmeras crianças, os escuteiros, que felizes abrilhantavam com os seus cânticos, alegrando a missa com as suas belas vozes e a sua curiosidade infindável muito própria da sua idade.

De regresso a casa, surgiu-me a ideia de recordar também outros bons momentos que vivi no passado. A música iria ajudar-me. E a primeira música a surgir foi o Danúbio Azul, de Johann Strauss II datada de 1866. Na minha memória surgiu a Stephansdom (Catedral de Sto. Estêvão) em Viena uma das mais antigas e imponentes catedrais de estilo gótico, que sofreu ao longo do tempo várias transformações, situada na Stephanplatz, mesmo no centro da cidade, sede da arquidiocese de Viena, datada do século XII, de uma beleza ímpar. É o edifício mais importante da capital austríaca tendo sido palco de vários acontecimentos importantes ao longo da sua longa história. É o símbolo de Viena há 8 séculos. Não muito longe situa-se a Igreja de S. Pedro (Peterskirche), situada na Petersplatz outra das maravilhas desta cidade inspirada na Basílica de São Pedro em Roma. No mesmo local foi construída a primeira igreja cristã, há 1.600 anos, embora tenha sido substituída por diversos motivos, entre eles dois incêndios. A Igreja atual barroca foi concluída em 1733. Quando entramos na igreja ficamos deslumbrados pela sua beleza, uma das mais bonitas que tive oportunidade de visualizar até aos dias de hoje. Está repleta de estátuas, com uma decoração ostentosa tendo como base detalhes dourados. De destacar os frescos que ilustram a Assunção da Virgem. Tive oportunidade de assistir a muitas missas e concertos nesta igreja que se tornaria o meu local de eleição enquanto permanecia em Viena. Achava delicioso observar não só a beleza da igreja, mas também o modo como as senhoras vienenses se vestiam a rigor, para assistirem à missa, usando chapéu e luvas, algumas exibindo as suas tranças tradicionais.

A Staatsoper constituía outra das minhas paixões já que gosto muito de ópera. Lembro-me que um dia tinha conseguido comprar bilhetes à última hora à entrada da ópera. Estava acompanhada pela minha irmã Isabel. Ficámos felizes porque adquirimos os bilhetes a um preço simbólico. A pessoa em questão não podia ir devido a um problema de saúde de um familiar e não quis deixar de ceder os bilhetes num camarote sabendo que o espetáculo estava lotado. Quando entrámos no camarote muito bem situado já se encontrava sentado na primeira fila um casal de muito bom aspeto vestido a rigor. Lançaram-nos um olhar sobranceiro, aprovando posteriormente com um sorriso e uma saudação a nossa companhia. Sentámo-nos atrás deles, mas constatámos que para ver o palco na sua totalidade teríamos de estar em pé. Ao lado do casal havia dois lugares vagos. Quem sabe, se não viesse alguém! A Ópera em questão era a Tosca de Puccini, melodrama em três atos. Orquestra e coro da Ópera de Viena, com um elenco fabuloso, num espaço sublime. Agradeci a Deus esta oportunidade que me foi concedida. A minha sensibilidade precisa para respirar da arte, da natureza, da cultura a par da transcendência, do amor a Deus, à família e ao próximo. Voltemos ao camarote. A porta abre-se. Entram dois cidadãos orientais em traje bastante desportivo. Descalçaram-se, tiraram os abafos e sentaram ao lado dos outros ocupantes vestidos a rigor, que se sentiram algo incomodados. A Ópera de Viena procura manter a tradição, a cultura do seu país, há que respeitar, na minha modesta opinião. Pouco depois o casal levantou-se e saiu, não tendo regressado. Acabaríamos por ocupar os seus lugares lamentando o incidente. Devo confessar que os orientais foram extremamente amáveis e sorridentes connosco. Ai meu Deus, os aspetos culturais! Criticar quem? Bem, no intervalo saímos para dar uma volta pelos belíssimos salões e escadaria. Na realidade pudemos constatar que a maior parte das pessoas se encontravam rigorosamente vestidas. Que bela ópera, embora com um final dramático, que excelente música e representação.

Veio-me ao pensamento que a morte é o pagamento que temos de fazer para entrarmos no Reino dos Céus. A noite da vida é a morte, ou seja, a entrada no famoso banquete da vida eterna. O remédio para o sofrimento é sofrer por amor a Deus. O médico Divino dá a vida por nós. A santidade consiste em fazermos o que devemos fazer. “Faz o que deves, hoje e agora”. Deus vai-nos pedir contas da nossa vida. “Porque foste fiel no pouco entra na alegria do teu Senhor”. Recordei a parábola das Bodas do Filho do Rei… Amigo, como entraste aqui, não tendo veste nupcial?... Porque muitos serão chamados e pouco os escolhidos, porque não tinham a veste adequada. Os escolhidos escutaram a palavra “Vinde a mim todos vós que andais cansados e oprimidos e Eu vos aliviarei”. Como diziam os discípulos de Emaús: “Nós sentíamos o coração a abrasar”. Jesus quer a nossa companhia. 

Termino recordando um bom momento. Depois de uma visita a uma empresa familiarmente responsável em que foi possível observar as medidas que tomavam em prol da defesa da família, ao final do dia foi-nos oferecido um jantar no Museu de História Natural com visita prévia guiada, em que me foi concedida a possibilidade de subir a uma varanda situada no telhado, de onde se pode observar a belíssima cidade de Viena, ao lusco-fusco, com o Palácio de Hofburg em frente, as luzes a acender parecendo pedir que parássemos um pouco para descomprimir, ouvir as histórias que têm para narrar. Dos melhores momentos da minha vida, em que se junta a história, a cultura, a música, a beleza da cidade, o bem comum. Só Deus, enquanto Pai, nos pode conceder estes bons momentos, que também são para agradecer enquanto dádiva do Céu.

Maria Helena Paes





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