quinta-feira, 5 de abril de 2018

Aliança entre o homem e a mulher

Apesar de todos os progressos no sentido da paridade entre homens e mulheres, persistem as notícias de episódios de violência e assédio sexual de que são vítimas mulheres, alguns recentes, outros que só agora são conhecidos. Neste contexto, é normal que surja a tentação de substituir um tipo de relacionamento baseado na subordinação ou opressão da mulher por outro baseado no conflito, na competição ou, pelo menos, na desconfiança recíproca entre os dois sexos.

Mais radicalmente, a ideologia do género pretende reduzir as diferenças entre homens e mulheres a meras convenções sociais e culturais que devem ser desconstruídas, sendo a união entre homem e mulher apenas um entre vários modelos de família.

O discurso do Papa Francisco à Academia Pontifícia para a Vida, de 5 de outubro de 2017 (acessível em www.vatican.va), é particularmente oportuno a este respeito e merecedor de aprofundada reflexão. A revista italiana Città Nuova dedicou-lhe um caderno especial. Podemos dizer que responde aos desafios do feminismo e da ideologia do género pela positiva, sem se limitar à crítica ou à polémica. Nele se apresenta a proposta de uma renovada aliança entre o homem e a mulher. Afirma o Papa que a narração bíblica do Génesis «deve ser lida sempre de novo, a fim de ser apreciada toda a amplitude e profundidade do gesto do amor de Deus, que confia a criação e a história à aliança entre o homem e a mulher».

Essa aliança está na origem da transmissão da vida através do casamento e da família. Mas não se esgota aí: «é chamada a ter nas mãos a direção da sociedade inteira»; «é um convite à responsabilidade pelo mundo, na cultura e na política, no trabalho e na economia, e até na Igreja». É mais do que a igualdade de oportunidades ou a paridade (que são certamente um pressuposto); trata-se, sobretudo, «do entendimento entre homens e mulheres sobre o sentido da vida e o caminho dos povos».

Para além dos estereótipos e das rígidas divisões de tarefas, as diferenças entre homens e mulheres (que foram criados juntos «numa abençoada diferença») são uma ocasião de enriquecimento recíproco. Negar interpretações negativas dessas diferenças não deve conduzir à «utopia do neutro» que as anula radicalmente. Também não se trata de substituir o predomínio de uma mundividência e sensibilidade tipicamente masculinas pelo predomínio de outras tipicamente femininas. Diz o Papa: «O homem e a mulher não são chamados apenas a falar de amor, mas a falar entre si com amor, daquilo que devem fazer a fim de que a convivência humana se realiza à luz do amor de Deus por cada criatura. Falar entre si e aliar-se, uma vez que nenhum dos dois – nem o homem sozinho, nem a mulher sozinha – é capaz de assumir esta responsabilidade».

Não se trata de reproduzir modelos do passado. Há que reconhecer atrasos e faltas e as «formas de subordinação que tristemente marcaram a histórias das mulheres devem ser abandonadas de maneira definitiva». Trata-se de um desafio para o futuro: «no horizonte da história desta época apresenta-se uma verdadeira revolução cultural»; e «a Igreja é a primeira que deve levar a cabo a sua parte». Trata-se de um «novo início» que só pode ser feito «por uma renovada cultura da identidade e da diferença». Nesta perspetiva, uma renovada aliança entre o homem e a mulher responde aos desafios da nossa época.

Pedro Vaz Patto



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