terça-feira, 10 de abril de 2018

Futebol

Não percebo nada de futebol: táticas, estratégias, meio campo, nada, rigorosamente nada. Apenas sei que há duas balizas e que o objetivo do jogo é colocar a bola na baliza do adversário. É a única parte que entendo e que admiro: mais que a pontaria, admiro a defesa. Acho admirável aquela rapidez, saltar ou atirar-se para o chão, agarrar a bola e depois o grito eufórico com a sílaba tónica prolongada até à exaustão, repetido uma vez e outra, se é a favor ou então apenas o anúncio de golo se é o adversário que o mete. Tirando isto, não sei mais nada.

Tive um professor de filosofia que, desdenhosamente, dizia que no futebol se pensava com os pés. Nunca esqueci e sempre que assisto a um jogo da seleção, são os únicos que vejo e pela televisão, lembro-me do que dizia este meu professor, que eu muito apreciava aliás, e verifico que não tinha razão nenhuma: o que ali há de talento, de cálculo matemático, de harmonia entre corpo e mente, de autodomínio, de humildade, de espírito de equipa, de luta, de todo o trabalho de treino e preparação que está por trás mostra que ali se trabalha com o corpo e a alma e a inteligência e o espírito.

Aprecio ainda a parte atlética: os saltos, o arrastar-se pelo relvado, o toque na bola, com o pé esquerdo ou direito ou com a cabeça, de frente, de trás.

Decididamente, o meu professor não tinha razão.

O desporto foi sempre uma atividade importante. Lembremos a Grécia antiga que imortalizava os seus atletas, cantando-os ou imortalizando-os em mármore, como fez Míron com o Discóbolo, de que podemos ver uma cópia, em Roma, no Museu Nacional, pois que o original se perdeu, e outra no Museu Britânico, em Londres.

Esta tradição foi retomada há tempos, pelo nosso Presidente, homem muito culto e muito sábio, condecorando os nossos jogadores e respetivo treinador com a comenda da Ordem do Mérito. E condecorando-os sem distinção, tanto o melhor do mundo como o menino da Ameixoeira, porque todos, com o treinador, foram um.

E Portugal vibrou, cantando o Hino Nacional, saltando, correndo, trepando aos telhados, acompanhando os seus heróis pela cidade, gritando Portugal! Portugal! O grito atravessou continentes numa explosão de orgulhoso patriotismo. Foi uma explosão que não se limitou a Portugal: foi planetária! De Lisboa a Díli, passando por Cabo Verde, Guiné, S. Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, Brasil, Américas, mostrando bem, como dizia Fernando Pessoa, que a nossa pátria é a língua portuguesa. Mas a nossa pátria é também onde se encontram portugueses. Porque com eles se encontram os valores que os caracterizam, bem demonstrados pela equipa portuguesa: o trabalho, o esforço, o espírito de luta, a tenacidade, a humildade, o espírito de união.

E como é que noutros aspetos da vida nacional não se conseguem os mesmos resultados: na economia, nas empresas, em suma no mundo do trabalho? Porque faltam treinadores com a garra dos que levam as equipas ao triunfo. Foi o que então disse por outras palavras o nosso Presidente, mais uma vez sabiamente: as elites não estão à altura do povo que dirigem. Seja em que campo for, acrescento eu.

É pena que não aconteça como no futebol: quando a equipa perde não se demitem os jogadores; demite-se o treinador.

Cecília Rezende



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