terça-feira, 10 de abril de 2018

Jacobina e Jacobinos

Se não é o maior intelectual nascido em Montenegro, e suspeito que o seja, por certo figura entre os maiores. Em seu quinquagésimo livro, “A religião de Jacobina”, Martin Dreher, com notável erudição, recua ao tempo do Pietismo, do Jansenismo e da Ilustração para evidenciar as raízes da intolerância que, bem mais tarde, no Ferrabraz, produziria o famoso massacre dos Mucker. Jansênio, flamengo, ave estranha nas entranhas da Igreja, defendeu a predestinação, combateu o livre-arbítrio e decretou que a natureza humana, por si só, é incapaz do bem. Dreher informa que Diogo Antônio Feijó foi um dos principais difusores do jansenismo e Machado de Assis sua maior expressão literária no Brasil, “em cujos romances os temas bíblicos são recorrentes”.

Para atingir o cume de sua narrativa, quando Jacobina e João Maurer são identificados como líderes de uma seita, de um grupo desobediente, Dreher vai revelando os conflitos desde o século XVIII entre a ortodoxia religiosa e as pequenas mudanças que certas lideranças  promoviam, em meio ao progressivo fracionamento do universo protestante, com a conversão inclusive de alguns alemães ao calvinismo. Isto num caldo de cultura em que havia de tudo, como os ataques de David Hume tentando mostrar a religião como algo irracional: “a religião só desvia a atenção do ser humano do que realmente acontece na vida. Sua preocupação com salvação é estreita e egoísta. Só leva a debates e provoca rancores e perseguições. A religião não tem qualquer base ou fundamento. Ela se baseia na fé, e fé nada é”.

Neste mesmo século XVIII, figuras como Voltaire, Diderot e D´Alembert passaram a atacar a religião como grande inimiga do progresso e das ciências naturais. A revolução francesa seria o desaguadouro de ódios incontidos. Recolho algumas informações do portal católico Aleteia, que significa, simultaneamente, verdade e realidade: “A ‘Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão’ promulgou a liberdade religiosa, reservando ao Estado o poder de determinar quando as opiniões em matéria de credo eram incompatíveis com a lei. Esta liberdade teórica, no entanto, teve escassa duração real. Em 12 de julho de 1790, estabeleceu-se a chamada ‘Igreja constitucional’, que, na prática, imposta por um rápido processo de fundamentalismo estatista, se tornou o único ‘credo’ aceito pelas autoridades. Essa ‘igreja’ tinha organização e funcionamento próprio, decidido pelo Estado. Os sacerdotes católicos foram pressionados a jurar fidelidade às novas normas estatais em matéria de religião e a se desligarem da obediência ao seu bispo e a Roma. Apesar da determinação do Papa Pio VI e da rebelião dos bispos perante a pressão estatal (só quatro cederam à nova ordem), muitos presbíteros, em especial no centro do país, se uniram à ‘igreja laica’ e viraram comissários políticos do Estado em matéria religiosa”.

Segue o portal: “A criação desta ‘igreja’ foi celebrada no Campo de Marte, com os oficiantes ataviados em vestes tricolores francesas. A perseguição contra os católicos que não aceitaram esta situação foi brutal. Os sacerdotes que se mantiveram católicos foram perseguidos, impedidos de celebrar sacramentos e de pregar e, a partir de 18 de março de 1793, se fossem presos em solo francês, deviam ser executados em menos de 24 horas”. Muitos tiveram a pena de morte comutada, mas foram enviados para as prisões da Guiana Francesa. Por que tais fatos são sonegados por aqueles que rasgam elogios para o que se deu depois da queda da Bastilha?

Mais tarde a revolução bolchevique reabilitaria o mesmo ódio à religião, o anticlericalismo e a perseguição às manifestações de fé, uma vez mais em nome da razão e do avanço científico. A despeito dos confetes comumente lançados sobre as revoluções francesa e russa, a brutalidade correu solta em ambas e as identifica e entrelaça, a despeito de seu aparente distanciamento.

A intolerância e a perseguição à Igreja também se verificaram entre os positivistas da aldeia. Em 1911 O Progresso reproduziu texto de A Federação, com ataques sem rebuço: “Estamos em uma epoca de anarchia moral e mental, porque nos falta uma religião que, triumphantemente, substitua o catholicismo decadente, e imponha a norma para a situação final prevista pela sociologia. E essa crise que se manifesta, que ha de ser resolvida, lentamente, é verdade, mas com precisão scientifica”. Coisas que parecem diversas podem ter similitudes surpreendentes.

Nos dias de hoje, sábio e inspirado, Papa Francisco pede que ninguém seja excluído por conta de raça, cultura ou religião e prega que todos devem ser recebidos de braços abertos, sem exclusão. Respeitado como pouquíssimas lideranças no mundo, Francisco não se omite e lembra que a liberdade religiosa, infelizmente, ainda hoje não se verifica em boa parte do mundo.

J. B. Teixeira







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