sábado, 7 de abril de 2018

Luther King: como uma dor de pés e um pequeno gesto podem fazer sonhar o mundo


sexta-feira, 6 de abril de 2018

Martin Luther King (ilustração reproduzida daqui)

O assassinato de Martin Luther King, cujos 50 anos se assinalaram na quarta-feira, dia 4, é o desfecho trágico de uma história que começou com uma dor de pés. (No final deste texto, há várias sugestões de outras leituras a propósito da efeméride)

A 1 de Dezembro de 1955, Rosa Parks, uma costureira negra de 42 anos foi presa na cidade de Montgomery (Alabama, Estados Unidos da América) por se ter recusado a dar o lugar a um branco no autocarro em que seguia. De acordo com as leis de segregação e os costumes da cidade, Rosa tinha que se levantar quando já não houvesse lugar nas quatro filas da frente para os passageiros brancos.

“É verdade que me doíam os pés, e que num primeiro momento foi isso que me levou a ficar sentada. Mas a verdadeira razão porque não me levantei foi por achar que tinha o direito de ser tratada como outro passageiro qualquer. Já tínhamos sofrido demasiado tempo aquele tratamento desumano”, recordaria a própria numa entrevista, em 1992. Sem que ela o soubesse, esta dor dos pés de Rosa Parks, que morreu com 92 anos em Outubro de 2005, viria a ser o primeiro passo de uma longa marcha pelos direitos cívicos dos negros norte-americanos.

No dia seguinte, Martin Luther King, jovem pastor da Igreja Baptista que estava na cidade há pouco mais de um ano, recebe um telefonema madrugador. E. D. Nixon pagara os 14 dólares de fiança para Rosa esperar o julgamento em liberdade. Ao telefone, quando King atende, Nixon esquece-se de lhe dar os bons dias e vai directo ao assunto: “Acho que está na altura de boicotar os autocarros. Só com um boicote podemos conseguir fazer com que estes tipos percebam que não vamos suportar mais este tipo de tratamento.”

Não pactuar com um sistema pernicioso

Antes do telefonema, conta o próprio King, E. D. Nixon telefonara ao pastor Ralph Abernathy, da Primeira Igreja Baptista da cidade, tendo ambos concordado com o boicote. King também adere à ideia.

À noite, a dúvida assalta-o: seria o método “intrinsecamente anticristão” e uma “forma negativa de resolver o problema”? Não: tratava-se apenas de “deixar de pactuar com um sistema pernicioso”, uma ideia do ensaio de Henry David Thoreau sobre a desobediência civil. E deixará de falar em boicote, passa a referir-se a um acto colectivo de não-colaboração.

A pé, de bicicleta, à boleia, de táxi. Aquele 5 de Dezembro, a segunda-feira da acção programada, é o primeiro de 381 dias em que os negros de Montgomery utilizam todos os meios possíveis nas suas deslocações. Todos, menos o autocarro. No mesmo dia, Rosa Parks é condenada, em tribunal, ao pagamento de 14.000 dólares – mas recorre. O sucesso da não-colaboração e a sentença judicial levam à criação de uma organização mais consistente. King, então com 26 anos, é o escolhido para liderar o processo. Ao fim de 14 meses, o Supremo Tribunal dos Estados Unidos declara inconstitucional a segregação nos autocarros.



Não vale de muito a Luther King o não ter inimigos quando tudo começa: a 30 de Janeiro de 1956, menos de dois meses depois do início da não-colaboração, a casa de King é atacada à bomba. A mulher, Coretta e a filha, Yolanda Denise, bebé de dois meses, estão em casa mas nenhuma delas sofre nada. Já de madrugada, o sogro de Luther King vem à cidade, para levar a filha e a neta para as proteger. “Desculpe, pai, mas não vou deixar o Martin sozinho numa hora destas. Tenho de ficar ao lado dele até que a luta chegue ao fim.” A mulher será um apoio indispensável na luta de Luther King, como o próprio repetirá várias vezes. Coretta morreu em Janeiro de 2006.

Após o ataque bombista, a opção pela não-violência como atitude cristã fica ainda mais evidente: “Para mim, cedo se tornou claro que a doutrina cristã do amor, posta em prática pelo método da não-violência de Gandhi, era uma das armas mais poderosas de que o Negro podia dispor na sua luta pela liberdade”. A sua opção alicerça-se mais quando, em Fevereiro e Março de 1959, Martin e Coretta visitam comunidades gandhianas na Índia. Em 2006, cinquenta livros do Mahatma ou a ele dedicados integram o espólio de King que nessa ocasião é vendido.

“Vi a terra prometida”

Se Gandhi é a referência activa, o grande inspirador é Jesus Cristo, a quem chama o “extremista do amor”. Em 1967, em Uma Só Revolução, escreve, parafraseando São Paulo na Carta aos Gálatas: “Em Cristo, não há homem nem mulher, comunista nem capitalista, escravo nem homem livre. Estamos todos unidos n'Ele.” Faz da Páscoa e da ressurreição horizontes permanentes de acção.

Na Sexta-Feira Santa de 1963, ao ser detido após uma manifestação, afirma, tranquilo: “Depois de Sexta-Feira Santa vem sempre a Páscoa.” Robert Miller, um dos biógrafos, atribui-lhe a frase quase profética: “Se a morte física é o preço que tenho de pagar para libertar o meu irmão branco e todos os meus irmãos e irmãs da morte permanente do espírito, então nada poderá ser mais redentor.”

A luta pelos direitos cívicos alarga-se a todo o país e a vários âmbitos: escolas, emprego, restaurantes, legislação, sistema de justiça, direito de voto, justiça económica, contestação da guerra. Crescem também as dificuldades: Luther King é detido ou multado várias vezes, diversas sentenças de tribunal são ditadas contra a luta dos negros, há centenas de prisões. Em 20 de Setembro de 1958, três meses depois de ter sido recebido pelo presidente Eisenhower, King é esfaqueado por uma mulher negra, enquanto dá autógrafos num grande armazém de Harlem, em Nova Iorque.

Luther King acompanhado por outros líderes do Movimento pelos Direitos Cívicos, 
durante a Marcha pelo Emprego e pela Liberdade, a 28 de Agosto de 1963 (foto reproduzida daqui)

A 28 de Agosto de 1963, Martin Luther King preside à Marcha pelo Emprego e pela Liberdade, que reúne pelo menos 250 mil pessoas em Washington. No discurso, depois de olhar a multidão, King abandona o texto preparado e improvisa: I have a dream…

“Tenho um sonho: de que um dia (…) os filhos dos antigos escravos e os filhos dos antigos donos de escravos conseguirão sentar-se juntos à mesa da fraternidade. (…) Tenho um sonho: de que os meus quatro filhos pequenos irão um dia viver num país em que não serão julgados pela cor da sua pele mas sim pelo conteúdo do seu carácter. (…) Quando todos fizermos soar o sino da liberdade, quando o fizermos soar por todas as aldeias e lugarejos (…), então sim, iremos poder apressar a chegada do dia em que todos os filhos de Deus, pretos e brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, serão capazes de se dar as mãos e cantar a letra do antigo espiritual negro: ‘Finalmente livres, Finalmente livres. Obrigado, Deus Todo-poderoso, somos finalmente livres!’”

Três meses depois, a 22 de Novembro, o Presidente Kennedy é assassinado. Será já o sucessor, Lyndon Johnson, a assinar a nova Lei dos Direitos Civis, em Julho de 1964. No final do ano, King, com 35 anos, recebe o Nobel da Paz. “Aceito este prémio em nome de todos os que amam a paz e a fraternidade.”

Manifestações, prisões, lutas continuam por todos os Estados Unidos. A 4 de Abril de 1968, Luther King é assassinado em Memphis. Na véspera, numa igreja da cidade, ele contava o que o seu olhar já vira claramente: “Temos pela frente dias difíceis. (…) Só quero fazer o que for da vontade de Deus. E Ele permitiu-me subir ao cume da montanha. E eu olhei lá de cima e vi a terra prometida. Pode ser que não a alcance convosco. Mas quero que saibais esta noite que o nosso povo há-de alcançar a terra prometida. (…) Não estou preocupado com nada. Não estou com medo de ninguém. Os meus olhos viram a glória da chegada do Senhor.”

(Texto reproduzido do anuário Janus 2007 – Religiões e Política Mundial, aqui publicado com ligeiras adaptações)

Em português, está publicado Eu Tenho Um Sonho - Autobiografia de Martin Luther King, livro que recolhe inúmeros textos do Prémio Nobel da Paz de 1964, organizados por Claybourn Carson; sobre Luther King e a efeméride dos 50 anos do seu assassinato, foram publicados nos últimos dias vários textos; aqui ficam algumas sugestões:

Martin Luther King, profeta da não-violência (por Corinne Gendreau): “O pensamento de King foi estruturado por encontros e leituras. (...) descobriu a teoria da resistência passiva com a leitura do ensaio de Henri David Thoreau, A desobediência civil: sobre o dever da desobediência cívica(...) ele escreve: ‘Gandhi foi provavelmente a primeira personalidade da História que soube elevar a ética do amor formulada por Jesus para lá da simples interacção entre os indivíduos, para fazer dele uma força social e colectiva.”
(texto integral aqui, em francês)

Canções para o Rei: Nina Simone, James Brown, Bob Dylan, U2… A esfera musical oferece-nos numerosas canções inspiradas por Luther King ou prestando-lhe homenagem. Uma lista, não exaustiva, de músicas, escolhidas por Jean-Luc Gradeau
(texto integral aqui, em francês)

Presidente da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos: o “amor activo” é necessário para continuar legado do reverendo King:
“Rezamos confiantes de que Jesus Cristo nos lembrará a todos que ele é o meio mais poderoso para quebrar as cadeias de ódio que ainda prendem muitos corações, uma verdade que está no centro do legado do Dr. King”, afirmou o cardeal Daniel N. DiNardo, bispo de Galveston-Houston, presidente da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos.
(texto integral aqui, em inglês)

Ivan Jurkovič, sobre o 50º aniversário da morte do profeta estado-unidense: “Francisco e Martin Luther King dirigiram a atenção universal para uma nova visão do mundo”: A figura do pastor afroamericano também é fonte de inspiração para Francisco, que fez referencia a esta personalidade no histórico discurso que pronunciou no Conbgresso dos Estados Unidos da América, a 24 de Setembro de 2015 e que, há menos de um mês, recebeu em audiência a Bernice Albertine, a filha menor de Martin Luther King, que também está comprometida em favor da não-violência e contra todo o tipo de discriminação.
(texto integral aqui, em castelhano)

Martin Luther King, um ícone (entrevista a Serge Molla, pastor na Suíça e autor de vários livros sobre Luther King): “Os dez primeiros anos do seu empenhamento são marcados pela luta contra a segregação. (...) Quando Martin Luther King se lança à questão da pobreza e à do envolvimento militar dos Estadis Unidos no Vietname, ele não conduz um outro combate, é o mesmo [combate] que ele persegue. Por um lado, porque a pobreza atinge particularmente os Negros (...) [Sobre a oposição à guerra], ele dá um exemplo simples: dois soldados, um negro e um branco, podem lutar lado a lado na mesma companhia mas, se forem mortos, não podem ser enterrados no mesmo cemitério. Ainda uma vez mais, a questão racial está no coração deste compromisso.”
(entrevista aqui, em francês) 

“Vocês têm o que é preciso para gritar” – crónica de Vicente Jorge Silva sobre o apoio implícito dado pelo Papa aos jovens que, nos Estados Unidos, lutam contra a posse de armas, no que pode ser lido como uma actualização da herança de Luther King:

“‘Queridos jovens, vocês têm o que é preciso para gritar (…) Cabe-vos a vocês não ficarem quietos. Mesmo que os outros fiquem quietos, se nós, as pessoas mais velhas e os líderes, alguns corruptos, ficarmos quietos, se o mundo inteiro ficar quieto e perder a alegria, eu pergunto-vos: ‘Vocês vão gritar?’”.

A assistência respondeu ‘sim’ a Francisco e é esse sim que é preciso amplificar, não apenas por parte dos jovens mas por todos, crentes ou não crentes, de todas as idades e latitudes, que se recusam a aceitar de forma silenciosa e submissa a ordem desumana, injusta e absurda que vemos hoje alastrar através do mundo. Sim, é preciso gritar contra o inferno, este inferno real que nos ameaça na Terra. Para além das polémicas teológicas, o inferno existe aqui, não num além longínquo e ficcionado pela religião, um inferno cultivado pelo ódio e a intolerância de todos os fundamentalismos e as loucas tentações mortíferas de tantos que nos governam.”




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