quinta-feira, 5 de abril de 2018

Quem Não se Sente Não é Filho de Boa Gente

Esta frase foi proferida por alguém que já não se encontra entre nós quando ficava sentida por algum acontecimento que a entristecia. Depois, com o tempo acabaria por perdoar e esquecer porque respeitava a liberdade das pessoas que possuíam outra visão sobre o assunto, mas também porque possuía um coração enorme. Queria sempre o bem de todos, restabelecer os laços familiares quebrados para que a família fosse, cada vez mais, unida com os seus diferentes estilos de vida, nos bons e nos maus momentos. Quando aparece uma dificuldade na nossa vida a graça de Deus é superior. Não deixaremos certamente de lutar para que nos levantemos quando caímos, colocando todos os meios existentes ao nosso alcance. “Tudo posso n´Aquele que me conforta!”. Todas as situações com as quais a nossa vida se confronta, transportam uma mensagem divina, em que nos é solicitada uma resposta de entrega aos outros, exigindo algumas vezes a necessidade implícita de não pensarmos tanto em nós mas sim na unidade familiar que constitui um bem precioso: “Toda a casa dividida contra si não se manterá”, ou então: “Ut omnes unum sint” (Que todos sejam um). Quantas vezes, teremos observado, numa perspetiva histórica, quando existe um membro da família que constitui o seu principal pilar, o seu suporte, que reúne todos ao seu redor, e por qualquer motivo desaparece, a família tende algumas vezes a desmembrar-se. “Recorro a duas candeias que a Igreja, com o rito da beatificação dos pastorinhos colocou sobre os candelabros, que Deus acendeu para alumiar a humanidade nas suas horas sombrias e inquietas… Que eles sejam uma luz amiga a iluminar o mundo inteiro”. (João Paulo II, Fátima, Maio de 2000, ano da beatificação dos pastorinhos, Francisco e Jacinta).

Depois de passado o Tríduo Pascal, reforçados com todas as graças concedidas, fazemos o firme propósito de lutar para, se possível, neste período de alegria, procurar restaurar as relações familiares e sociais, os laços que nos unem, os afetos, não esquecendo que a alegria tem raízes na cruz. Na realidade constitui uma dualidade já que a vida é extremamente rica quer em acontecimentos positivos como negativos, mas tendo sempre presente que do mal se pode tirar o bem. Jesus disse “dar-vos-ei uma alegria que ninguém vos poderá tirar”. Importa, pois, sermos semeadores de alegria e de paz. Para se alcançar esse propósito, muito contribui, dar destaque aos acontecimentos positivos. Quantas vezes nos sentimos estimulados e reconfortados quando temos perto de nós pessoas positivas e sorridentes que possuem ainda o dom de nos fazerem sentir quanto lhes somos queridos e desejados. Alguém disse que a tristeza é aliada do inimigo. Importa referir igualmente que, quando estamos, por qualquer motivo, obcecados com uma situação, com algum grau de frequência, construímos filmes que não existem, apercebendo-nos mais tarde do erro em que caímos.

A propósito da alegria, de nos sentirmos desejados e queridos, há algum tempo que tencionava visitar uns sobrinhos que têm dois filhos ainda pequenos, com os quais gosto de passar alguns dias mas que, por motivos imprevistos, fui adiando. Na realidade sinto-me tão bem na sua companhia que os considero a minha família de acolhimento, ou ainda, como se fossem meus filhos e netos. De repente, deram-me umas saudades enormes e eis-me a caminho. Quando me viram vieram a correr ao meu encontro de braços abertos dizendo: “Pai, a tia veio”. Senti que era um grande acontecimento, uma alegria enorme. A seguir discutia-se com qual dos meus sobrinhos netos iria dormir comigo. O gato que faz parte da família, deitado no sofá, abriu um olho, viu-me, e continuou calmamente a dormir. Afinal era alguém da casa! A minha sobrinha já não foi à sua aula de ginástica e preparou-me um jantar delicioso referindo: “Aqui não há dietas!”. E o serão que se seguiu foi extremamente agradável com o sobrinho mais novo ao colo. A minha sobrinha comentou a certa altura quando agradeci todas as atenções com as quais me obsequiavam: “Minha tia aqui em casa existe sempre um ombro amigo”. O meu sobrinho observava com atenção, todos os cuidados dispensados. Sei que no seu íntimo revia em mim um pouco da sua mãe que era muito parecida comigo. E assim, com o coração em festa, terminou na manhã seguinte a curta visita, tendo prometido que voltaria em breve, se Deus quiser.

Termino o artigo com o título que lhe dei: Quem não se sente não é filho de boa gente. Não vale mesmo a pena guardar ressentimentos, amargos de boca. A vida já é tão difícil! Foi o próprio Jesus que disse: “O que fizerdes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes!”. 

Maria Helena Paes



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