terça-feira, 10 de abril de 2018

Viagem pelo New Age

O New Age é um fenómeno complexo, envolto num sincretismo de elementos esotéricos e seculares que, com o correr do tempo, se tornou numa moda ou corrente cultural. Não é um movimento individual uniforme, nem religioso, no sentido de seita ou culto, é algo mais difuso e informal, transversal a diversas culturas, mas parte duma reacção mais ampla que se identifica como um movimento iniciado nos anos sessenta “ contra a cultura então dominante”.

Segundo os astrólogos, a actual época em que vivemos, a Era dos Peixes, dominada pelo cristianismo, atingiu o fim e será substituída pela Era do Aquário, um novo paradigma ou modelo, que conciliará a prosperidade, a harmonia e a paz, restabelecendo os cultos pagãos, com uma mistura das religiões orientais, de psicologia, de filosofia de ciência.

Em 1967-68, nasceu nos EUA este movimento de contracultura que passou rapidamente à Grã-Bretanha, França, Alemanha e Portugal: lutavam pelos direitos das minorias, feminismo, amor livre, consumo de drogas, manifestações de estudantes em favor da paz no Vietname e revoltas estudantis, como o Maio de 68, em Paris.

Surgiram comunidades como os hippies, que cantavam o amor livre, a harmonia universal e a paz, como protesto maciço destas gerações mais jovens contra o materialismo da sociedade americana, a guerra, o racismo, as normas, os valores, a família e as religiões monoteístas, nomeadamente o Cristianismo.


A Ópera Rock Hair, de 1968, simboliza bem esta novidade, na sua canção principal que se chamava Aquarius.

O festival de música Woodstock, em Nova Iorque, em 1969 foi outro momento característico do surgir e do alastrar do novo movimento New Age.

De forma sub-reptícia estas influências foram impregnando toda a sociedade através do cinema, da música, da arte, da literatura, da moda, etc. Os seus grandes difusores foram os meios de comunicação, a publicidade e consequentes estratégias comercias que, sabiamente, se aproveitaram destas novidades.



Na busca da procura de estados místicos alegadamente superiores e de experiências psicadélicas de expansão da consciência, da visão unificadora do mundo, dum além, duma outra face do real e da exploração de outras zonas do eu, tão defendida por estes grupos de intervenção e fomentada por outros, também havendo a prática do recurso ao LSD 25, tendo num curto espaço de tempo a droga atingido 350 000 jovens americanos, para não falar na europa e, posteriormente, outros locais do mundo. Aldous Huxley, o sábio visionário com o seu livro Admirável Mundo Novo, Carl Gustave Jung, William James, Wilhelm Reich, Carl Rogers, entre muitos outros, foram representantes destas novas experiências psíquicas e psicadélicas.

Porém, a matriz essencial do pensamento do New Age deve ser procurada na tradição esotérica-teosófica que gozou de grande aceitação nos círculos intelectuais europeus dos séculos XVIII e XIX, em particular, e vigorou na maçonaria, no espiritismo e no ocultismo.

Elena Petrovna Blavatskaya, 1831-Rússia, maio de 1891, em Londres foi uma prolífica escritora, responsável pela sistematização da moderna Teosofia e cofundadora da Sociedade Teosófica, com Henry Olcott, em 1887, nos Estados Unidos.

Muito polémica, com dons psíquicos incomuns e paranormais, escreveu o livro A Doutrina Secreta, uma síntese de História, Ciência, Religião e Filosofia, entre outras obras, que rapidamente se divulgaram.

No momento histórico em que a religião praticada na europa estava a ser alvo de perseguição e de descrédito com o avanço da ciência e da tecnologia, o cristianismo começou a ser considerado retrógrado, pelo que estas ideias modernas anunciando novos tempos, aliciaram e conquistaram muitos adeptos.

O novo movimento incorpora no seu seio antigas práticas do ocultismo egípcio, do gnosticismo, do sufismo, das tradições dos druidas de natureza pagã relacionados com o cristianismo celta, do budismo zen e do ioga.

O deus de que fala a Nova Era não é nem pessoal, nem transcendente, nem o Criador que sustenta o universo, mas sim uma energia impessoal, imanente ao mundo, com o qual forma uma unidade cósmica.

O homem do New Age considera-se co-autor da sua própria realidade, nega a existência de um Deus Criador e assume-se ele próprio como um ser superior. A salvação não lhe vem da Revelação mas está dentro dele. Quando falam em energia crística não aludem a Jesus Cristo de Nazaré, mas a alguém que chegou a um estado de consciência universal, como Buda, Maomé entre outros.

Alguns fenómenos que lhe estão ligados:

Panteísmo – tudo é deus e deus é tudo. Para os cristãos, Deus não é imanente à criação, mas é-lhe transcendente, embora esteja presente.

Vampirismo, magia, previsões astrológicas, horóscopos, Halloween (a forma como hoje se celebra não reflete os Santos mas sim o culto do mal, pois nessa vigília realiza-se uma festa importante do culto satânico segundo o calendário das bruxas). 

Sanatismo – recurso a técnicas dependentes da psicoterapia, do ioga, do reiki, práticas muito difundidas no âmbito da saúde holística.

A Nova Era é uma “visão” de vida de bem-estar e de tolerância universal, que pretende introduzir nas pessoas um "despertar" de consciência, desligando-as do Cristianismo e abrindo caminho para uma nova religiosidade.

Uma boa parte da moral tradicional deixaria de ter lugar na nova Era do Aquário. O modo de pensar das pessoas seria transformado completamente e já não existiriam as antigas divisões entre homens e mulheres. Os seres humanos deveriam ser sistematicamente chamados a assumir uma forma de vida andrógina, que apresenta características sexuais ambíguas, em que ambos os hemisférios do cérebro são oportunamente utilizados de forma harmónica e não divididos como agora.

Para os adeptos da Nova Era, não é a Deus que devemos conhecer e amar, mas a nós mesmos, defendendo que Deus não é superior aos homens e digno de ser amado sobre todas as coisas, mas é igual a eles. Assim é exaltada a criatura e destronado o Criador.

Neste contexto de absolutização do homem que se substitui ao divino gerou-se um relativismo moral, uma indefinida avaliação das verdades e dos valores, do bem e do mal, tudo parece ser relativo, igual, a noção de pecado foi abolida, pois se o homem está ao nível de Deus, tudo tem o mesmo peso…

A New Age apresenta-se como uma espiritualidade alternativa ou de substituição nesta era pós ou hipermoderna, e sendo, aparentemente, um movimento não centralizado e que não tem nenhuma estrutura dirigente visível e institucional alastrou e embebeu grande parte da nossa sociedade, a qual nunca esteve tão influenciada por ideias ocultistas, esotéricas, mágicas ou pseudomísticas, como nos dias de hoje. 

Estes temas estão completamente infiltrados no âmbito da política, da educação, da saúde e da legislação. Ex. Controle de natalidade; experiências em engenharia genética; o sonho humano de se fabricar – barrigas de aluguer; alteração das regras naturais da sexualidade, desafiando os limites da morte (aborto e eutanásia), com consequente legislação, como nos programas oficiais do ensino em que o Estado veicula nas Escolas através da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, bem como a introdução de “medicinas alternativas “, entre outras intervenções no campo individual e colectivo.

Se para uns esta perspectiva é altamente sedutora, para outros torna-se um desafio ou mesmo uma ameaça, na medida em que transmite uma visão da realidade que é incompatível com a fé católica, pretendendo ocupar o seu lugar espiritual e religioso duma forma muito doce e suave, tolerante e pacífica.

Porém, estar informado, conhecer o que lhe está subjacente, compreender bem esta realidade, para assim poder e saber discernir com toda a liberdade, é um dever e um direito que não devemos nem podemos ignorar.

Maria Susana Mexia




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